domingo, 9 de agosto de 2009

Descobrimento

(Di Cavalcanti. paisagem colonial urbana. c.1950)

Desembarquei na Ilha de Salvador (acho que era esse o nome) com um rapaz latino que conheci no Continente. Os sobrados de cores vivas em primeiro plano logo me encantaram. Descemos umas escadas, e o rapaz – que era professor e vinha procurar materiais sobre a esquerda – ficou meio chateado com o câmbio alto do dia e a impossibilidade de converter suas notas para a moeda local. Assim que chegamos, perguntei pela violência – como se fosse comum - ao que fui respondido pela existência de tiroteios recorrentes. Em seguida, como que naturalmente após breve observação, indaguei sobre as pessoas negras, que parecia não enxergar o suficiente. Não me lembro de respostas, mas ouvir minha própria pergunta deu-me ciência de que estava numa ex-colônia escravista.


Caminhávamos um pouco ilha adentro, pelo meio de uma das inúmeras íngremes ruas de paralelepípedo. Havia um razoável vai e vem de pessoas, chegando e saindo do pequeno porto. Foi quando, nesse movimento, deparei-me com umas meninas negras conhecidas de outros espaços, com as quais conversei sobre coisas corriqueiras. Neste momento, olhando para o homem que me acompanhava, o descobri amigo de longa data, e conhecido daquelas meninas. Ele era negro também. Nos pomos todos em prosa.


O dia amanheceu ensolarado e saí de casa.

domingo, 26 de julho de 2009

PARANÓIA URBANA

É madrugada, e as únicas luzes acesas são as da tela do computador e a do corredor do andar, que transpassa a janelinha da porta de entrada. Chove e faz um frio ameno. Ouço os pingos caindo, o vento balançando as folhas da mangueira do terreno ao lado. Quando em vez, um barulho de fruta caindo.

Estou sem sono. Cafés, mais a maldita sesta. Todos dormem em casa. Tento fazer os olhos pesarem assistindo à filmes no computador. Não vou pegar em textos hoje. Amanhã acordo às oito. Ouço passos no corredor. Intermitentes, parecem se esconder. Chaves destravando a fechadura. A porta abre-se, fecha-se. Toda a madrugada é assim.

Um som é só um som. Seria bom acreditar. Passos seriam somente passos, se não me informassem diariamente as estatísticas sobre o aumento de assaltos às residências. Portas abrindo de madrugada significariam apenas a existência de pessoas com hábitos noturnos, se acreditasse que na vida não tenho nada a perder. As folhas a caírem das arvores seriam um inofensivo movimento da natureza, se qualquer bicho não domesticado maior do que a minha unha não me deixasse terrificado. A ameaça permeia o tecido do escuro e do silêncio.

Essa não é uma hora boa para passos e fechaduras. É contra o fluxo da vida, a ordem do mundo. Num prédio residencial à uma da manhã deve reinar o mais absoluto silêncio. Logo, sob a sugestão da solidão e da escuridão, sem às vozes costumeiras do dia, tudo é estranho, prenúncio de perigo, aviso para o medo. Onde deveria reinar a paz, ressente-se pela falta do conhecido e inofensivo, as vozes, o movimento e a luz. A cada ruído inesperado, um arrepio, um suspiro, um pulsar mais acelerado. O stress piora a minha insônia.

Resisto a cama, pois se existe algo pior que essa realidade de filme de terror, são os pesadelos que costumam me assombrar quando forço um sono inexistente. Acordar com o grito engasgado, com aquele fremido mais assustador do que o próprio pesadelo. Malditos cigarros, que me põem a dormir de boca aberta. Ficar acordado é uma opção entre os fantasmas do sonho e os que existem em cada ruído. Escolho o segundo, o que com o tempo, acabo por aceitar bem. Nunca nada acontece, apesar de sempre parecer que vai.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

sem título

A ausência de um horizonte
diferente desse estar
me faz sem forças
para em algo melhor pensar

Mas de vez em quando
aparece um incômodo,
quando percebo
a inércia do desejo
de querer outro lugar

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Emancipação

Era como se não houvesse o que esperar, e a passagem do tempo deixasse de ser um fardo, uma dor. Era como se cada momento vivido fosse o melhor até aquele instante. E era eu, tão somente, o responsável por aquela mudança. Não me perguntem como consegui alienar dos sentimentos a dor, a ansiedade, a angústia. Sinceramente não sei. De um instante para outro, adquiri o poder de encontrar o êxtase em cada nuance do presente imediato, e tudo além deixava de importar. O mais impressionante é que, na minha caixa de lembranças, estava tudo lá. O desejo pelas mulheres, pelo conhecimento, as imagens de paisagens bonitas que conheci e que gostaria de conhecer, as reminiscências palatativas, o gosto do chocolate, o prazer de fumar depois do almoço num dia frio. Não obstante, deixava de ser urgente, não mais ansiava desesperadamente. Era como se o dispositivo de acionamento da vontade tivesse sido tirado do automático, e o da admiração, contemplação, trabalhasse em sua mais alta potência. Este despertar me deixou perplexo. Estava realmente disposto a explorar este novo homem que nasceu naquela manhã de março.

Não havia pressa.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Desconstrução

Um homem beirando os sessenta, que passa dois terços de sua semana recostado numa ampla barriga, assistindo televisão e dormindo. Um homem sem amigos, que só se move num pequeno raio de distância, cujo maior prazer consiste em beber cerveja no bar mais próximo, quase solitário.

Eis a triste visão que tenho de meu pai. Talvez um olhar mais distante possa afirmar “Está aí um homem que não precisa de muito para viver”. Aceitar esta verdade certamente me faria uma pessoa mais feliz, se todo o dia não tivesse que topar com aquela coisa decadente, cabisbaixa, com medo do mundo e desconfiada de todos. Como poderia admirar essa figura masculina que faz da submissão da mulher sua fonte de subsistência, que se esconde dos desafios do mundo num código moral fácil, fundado em bem e mal, sucesso e fracasso, vencedores e perdedores?

Nem sempre foi assim. Dos vinte e cinco anos em que hoje me encontro, a maior parte foi de respeito e admiração imponderável por aquela figura. Era o lugar de autoridade, sempre incontestável. Era tão fácil... Mas a vida, embora totalmente sem sentido em si, me reservou desígnios distintos, levando-me ao conflito com aquele mundo de verdades quase matemáticas.

Nunca como nos últimos anos pensei tanto em meu pai. Pensamentos questionadores, que peca em vilipendiar aquela memória sacra que guardo em meu coração. Se antes sua potência imputava-me temor, a razão do medo agora encontra-se exatamente em sua antítese. O tamanho do meu poder ante o ídolo desconstruído, frágil, faz-me temer pela piedade. Porque apesar de tudo, o amor de um filho pelo seu pai é incondicional.

Por que é tão difícil sair dessa adolescência?

quinta-feira, 30 de abril de 2009

ILUSÃO

Imagino que por volta das três. Meia dúzia de homens bêbados vagando pelas desertas ruas de Niterói. Existe um destino, Oásis, nome sugestivo à circunstância. Um conhecido afiançara o nome para a entrada gratuita. De nada adiantou. Rateando por todos, garantimos uma cortesia. Cinqüenta contos e quinze latas de cerveja.

A casa está cheia. Luzes piscando, funk alto. Dor de cabeça e azia. Umas dez mulheres de lingerie tentam garantir a noite. Jackson está chato, me enchendo com um discurso hipócrita sobre a humanidade das putas e seus sentimentos. Afirmo-lhe a razão, mas pouco importa. Não é o momento, muito menos o lugar para reflexões profundas sobre a condição humana.

Estou enfastiado. Sentado no palco, olho para bundas e peitos nus, morrendo de tesão e sem um puto para saciá-lo. Bendita decisão de deixar o VISA em casa, penso com meus botões. Me sinto solitário. O ambiente tira a vontade de qualquer conversa. Era o que imaginava.

Saindo dos fundos do salão, uma morena alta, robusta , com um belo rosto, encosta-se numa parede próxima. A timidez me impede de dar-lhe atenção. Sinto um toque leve no lóbulo da orelha. Volto-lhe com um olhar gentil e um sorriso sem jeito. Novamente o mesmo gesto. Tomo coragem e puxo-lhe pela mão. Se chama Rossana, e me acha uma gracinha. Forjo uma risada irônica, dizendo-lhe que aquele elogio já valera pelo dia. Tapando a face com as mãos, a moça finge um enrubescimento, não sei se realmente existente.

Papeamos de forma amorosa. Digo-lhe palavras bonitas, elogiando a beleza de seus grandes olhos claros e brinco afirmando que, se pudesse, apresentaria-lhe à minha mãe. Demonstrando carinho, Rossana aconchega sua cabeça em meu peito, e sobrepõe suas pernas às minhas. Envolvo meus braços em suas costas, e ponho-me a acariciar seus cabelos. Com a outra mão livre, aliso a sua delicadamente. Sinto vontade de beijá-la. Sacando meu frouxo estilo, começa me prometendo namoro; depois beijos apaixonados; depois um boquete; depois o Céu. Digo que adoraria tudo, namorar e beijá-la, até o fim dos dias, mas que naquela noite seria impossível. Prometo-lhe um futuro próximo em que tudo se realizaria.

Sustenta-se um silêncio por alguns minutos, nos quais observamos a dança sexual das outras moças. Tento puxar novamente uma conversa, mas em vão. Diz que vai se maquiar, e elegantemente se dirige ao banheiro imundo. Não mais volta.

No decorrer da madrugada, cruzara com ela algumas vezes pela boate, sempre acompanhada de outros. Sabedor da impossibilidade de proporcionar a verdadeira satisfação aquela moça, não me sinto triste. Penso por alguns momentos na possibilidade de cumprir aquela promessa. Possivelmente, não fará a menor diferença para ela, que assim como brutos, deve conviver usualmente com tipos ingênuos como eu. Aproveito contente até a alvorada, saciado da ilusão de ter e ser amado, mesmo que por alguns míseros minutos.

domingo, 5 de abril de 2009

Lábios

Puxando-lhe o pescoço, toquei seus lábios
nunca provei suspiros tão doces.
Segurando-lhe as coxas, encontrei seus lábios
os agudos penetraram-me a espinha.
Havia descoberto a vocação dos meus lábios
Porém quando deixastes meus lábios solitários
eles só haviam de machucar
Por isso você foi embora, levando os seus lábios.
Peguei uma faca e então arranquei os meus,
pois neles só ficaram o que de pior há em mim,
O adeus dos seus lábios.