sábado, 3 de outubro de 2009

Predição

Jean-Louis David, A morte de Marat, 1793.
O que faço de melhor nessa vida? Advinha? Lamentar-me. Sou o campeão, tão bom que lamento a possibilidade de haver alguém que lamente mais e melhor do que eu. Alguém que vá tão fundo quanto eu. Alguém que receba a melhor notícia do mundo e fique pensando que aquele momento de felicidade vai acabar e sofra a alegria! Alguém que não consegue ter nem a dignidade de ficar triste por achar não haver motivo para tristezas, e que certamente está agindo errado!
Sim, essa pessoa sou eu, sadly (por quê essa idiotice de escrever em inglês?).
Passei quase o dia todo ouvindo Beatles. Isso me faz uma pessoa legal?! Vou aos Democráticos dentro de uma hora. Antes, encontrar um amigo. Vou beber, fumar e conversar,e essa parte será boa (sempre é). Depois de algum tempo, vamos entrar, meu amigo, a namorada dos sonhos dele, e eu. Ficarei ouvindo o bom samba, olhando as meninas, invejando os bons dançarinos e querendo ser alguém que não sou. Vou beber mais, fumar mais, tentar encontrar alguma diversão, forçar-me a dar em cima de alguém, ficar sem jeito e levar um fora que me deixará tão sem graça que passarei o resto da noite ensimesmado, sentindo-me um homem nu em rede nacional. O sentimento vai passar, vou fingir um entusiasmo para não estragar a noite (afinal, tenho que manter a aparência de "rapaz legal que sabe se divertir"), esperar as três ou quatro, pegar meu ônibus, me masturbar um pouco, e dormi meio grogue pelo efeito do álcool.

Amanhã não farei nada, e passarei a maior parte do tempo pensando no que deveria estar fazendo.Talvez na segunda acorde bem, estude alguns pares de horas e volte a me sentir bem.

Tem certas coisas que parecem que nunca vão mudar!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Momento Twitter Insone

São duas e quarenta e uma da manhã. Uma madrugada de sexta. Não tem nada de bom na TV. Saudades do Clube da Criança Junkie. Maldita insônia! Já passei da idade de lamentar essas coisas.
"Sei de uma bárbara região cujos bibliotecários repudiam o vão e supersticioso costume de procurar sentido nos livros e o equiparam ao de procurá-lo nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão. Admitem que os inventores da escrita imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, mas afirmam que essa aplicação é causal e que os livros em si nada significam." (Jorge Luís Borges, A Biblioteca de Babel)

sábado, 5 de setembro de 2009

Ego

Caravaggio. Narciso. 1597
[Na varanda do segundo andar do teatro, separada dos corredores internos por uma porta de vidro, a espera do início do espetáculo]

Pelo reflexo da porta espelhada, a enxergava sem ser percebido. Lia ou escrevia algo sentada no banco de madeira. Um rapaz interessado aproximou-se e começaram a conversar. Em pouco, estavam a admirar juntos o mesmo texto.

Pensamentos ruins me vieram, trazendo com eles uma certa amargura. Qual é o meu problema? Por que estou sempre tão sozinho? Gostaria que isso não importasse. Afinal, o que há de tão errado na solidão? O que há de errado comigo?

[Acende um cigarro. Em seguida sente um incômodo no pescoço]

Estou ficando velho. Estou me sentindo velho. Não! Estou me sentindo mal. Espiritualmente, no sentido vulgar do termo. Por que me importo tanto comigo? Ninguém liga, deveria me convencer. Por que ajo como se alguém se importasse? Por que alguém deveria se importar comigo? Preciso achar a minha pergunta filosófica, aquela que eu devo sempre pensar quando me encontrar numa crise existencial. Se vale a pena viver? Certamente não é essa. Talvez dê muito valor à vida.

[Encaminha-se ao banheiro, passando em frente ao casal que antes observava. Entra numa das cabines e se posta em frente ao vaso sanitário, que possui uma parede de mármore]

Esses pontos brilhantes(...) Podiam ser estrelas numa noite sem nuvens. Já vejo o plano! Seria uma belíssima cena. Mas qual o sentido? Metáfora? Sonho? Se fosse cineasta, seria daqueles criticados por dar mais valor à forma que ao conteúdo. Mas por quê deve haver um sentido? Por que uma imagem não pode ser só uma imagem? Não posso fazer pontos brilhantes de uma pedra de mármore virarem estrelas só para expor a beleza do movimento? O que faz a genialidade dos gênios? Será que alguém vai me convencer que é algo mais que a porra do acaso?

Lembro da idéia que tive uma semana dessas. Simplesmente genial, embora não original (George Orwell já a teve na minha frente). Uma estória contada em um movimento de câmera (vou dar o nome técnico de câmera subjetiva) só existe nos espaços interiores residenciais. O resto é captado por câmeras de segurança, de controle do trânsito, de empresas de transportes públicos, de elevadores! Se tem um sentido? Claro que tem! O sentido, primeiro, é a sensação cotidiana de estarmos sendo observados! É óbvio que o protagonista deve demonstrar um desconforto constante. Nada do que fizer no espaço fora do lar deixará de ser observado. O outro sentido? Psicológico, claro. Só se é um sujeito, um indivíduo dotado de sentimentos, valores, vida, dentro do seu espaço doméstico. Para o resto que capta sempre em meio a outros, o homem continua sendo mais um, só percebido se fizer algo que ultrapasse os liames da lei. Principalmente a lei defensora da propriedade – afinal, a maioria das câmeras que nos observam são de empresas privadas. Talvez um final no qual o indivíduo descobre estar sendo observado em sua própria residência. Algo como “A vida dos outros”. Genial!
Não, é idiota! Não tenho a estória, só a forma. É isso o que sou, só um estilo. Vazio.

[Passaram-se meia hora, alguém bate insistentemente na porta da cabine]

Tem sempre um filho da puta para importunar nossos pensamentos.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Automato

Salvador Dalí. Soft watch at moment of first explosion. 1954.

O despertador tocou às cinco e meia. As pernas foram para o chão na intermitência de alguns segundos. O ar povoou os pulmões num inspirar profundo. Os olhos semicerrados marejavam. A passos lentos, o corpo levantou-se, os braços pendulando mortos. Dirigiu-se ao banheiro. À meia escuridão, os pés fincaram parando a estrutura corcunda em frente a pia. A torneira aberta jorrava grande volume e as mãos em concha pousaram sob a torrente. Um movimento espinhal fechou o àngulo perpendicular encontrando as palmas. Após a fricção completa da face, os indicadores escalaram para os cristalinos, limpando assim as secreções que a noite depositara. Uma imagem delineava-se no espelho.


A luz projetando as cores da matéria me convencia: era a porra de mais um dia que começava.

domingo, 9 de agosto de 2009

Descobrimento

(Di Cavalcanti. paisagem colonial urbana. c.1950)

Desembarquei na Ilha de Salvador (acho que era esse o nome) com um rapaz latino que conheci no Continente. Os sobrados de cores vivas em primeiro plano logo me encantaram. Descemos umas escadas, e o rapaz – que era professor e vinha procurar materiais sobre a esquerda – ficou meio chateado com o câmbio alto do dia e a impossibilidade de converter suas notas para a moeda local. Assim que chegamos, perguntei pela violência – como se fosse comum - ao que fui respondido pela existência de tiroteios recorrentes. Em seguida, como que naturalmente após breve observação, indaguei sobre as pessoas negras, que parecia não enxergar o suficiente. Não me lembro de respostas, mas ouvir minha própria pergunta deu-me ciência de que estava numa ex-colônia escravista.


Caminhávamos um pouco ilha adentro, pelo meio de uma das inúmeras íngremes ruas de paralelepípedo. Havia um razoável vai e vem de pessoas, chegando e saindo do pequeno porto. Foi quando, nesse movimento, deparei-me com umas meninas negras conhecidas de outros espaços, com as quais conversei sobre coisas corriqueiras. Neste momento, olhando para o homem que me acompanhava, o descobri amigo de longa data, e conhecido daquelas meninas. Ele era negro também. Nos pomos todos em prosa.


O dia amanheceu ensolarado e saí de casa.

domingo, 26 de julho de 2009

PARANÓIA URBANA

É madrugada, e as únicas luzes acesas são as da tela do computador e a do corredor do andar, que transpassa a janelinha da porta de entrada. Chove e faz um frio ameno. Ouço os pingos caindo, o vento balançando as folhas da mangueira do terreno ao lado. Quando em vez, um barulho de fruta caindo.

Estou sem sono. Cafés, mais a maldita sesta. Todos dormem em casa. Tento fazer os olhos pesarem assistindo à filmes no computador. Não vou pegar em textos hoje. Amanhã acordo às oito. Ouço passos no corredor. Intermitentes, parecem se esconder. Chaves destravando a fechadura. A porta abre-se, fecha-se. Toda a madrugada é assim.

Um som é só um som. Seria bom acreditar. Passos seriam somente passos, se não me informassem diariamente as estatísticas sobre o aumento de assaltos às residências. Portas abrindo de madrugada significariam apenas a existência de pessoas com hábitos noturnos, se acreditasse que na vida não tenho nada a perder. As folhas a caírem das arvores seriam um inofensivo movimento da natureza, se qualquer bicho não domesticado maior do que a minha unha não me deixasse terrificado. A ameaça permeia o tecido do escuro e do silêncio.

Essa não é uma hora boa para passos e fechaduras. É contra o fluxo da vida, a ordem do mundo. Num prédio residencial à uma da manhã deve reinar o mais absoluto silêncio. Logo, sob a sugestão da solidão e da escuridão, sem às vozes costumeiras do dia, tudo é estranho, prenúncio de perigo, aviso para o medo. Onde deveria reinar a paz, ressente-se pela falta do conhecido e inofensivo, as vozes, o movimento e a luz. A cada ruído inesperado, um arrepio, um suspiro, um pulsar mais acelerado. O stress piora a minha insônia.

Resisto a cama, pois se existe algo pior que essa realidade de filme de terror, são os pesadelos que costumam me assombrar quando forço um sono inexistente. Acordar com o grito engasgado, com aquele fremido mais assustador do que o próprio pesadelo. Malditos cigarros, que me põem a dormir de boca aberta. Ficar acordado é uma opção entre os fantasmas do sonho e os que existem em cada ruído. Escolho o segundo, o que com o tempo, acabo por aceitar bem. Nunca nada acontece, apesar de sempre parecer que vai.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

sem título

A ausência de um horizonte
diferente desse estar
me faz sem forças
para em algo melhor pensar

Mas de vez em quando
aparece um incômodo,
quando percebo
a inércia do desejo
de querer outro lugar