sábado, 6 de junho de 2015

Exercícios de Loucura

Os ponteiros tortos do relógio percorrem na disritmia dos corações enfartados.
Os passos em sentido contrário rumam o descaminho das perdições. Para partirem a chegada, chegam à partida.
As coisas representam os nomes, o que torna a comunicação tão real e infinita quanto a vida.
A textura do amargo tem o som escuro das noites sem lua.
A mulher amada morde de felicidade a dor do parto.

Tudo é tão grande que nada me sobra, simplesmente.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Rascunhos lispectorianos

Eu te gosto tanto, te tenho um respeito tão profundo que jamais direi uma palavra sobre ti. 
Estarás em toda a criação, e só meu íntimo saberá. 
Nas tuas palavras, encontro as minhas e as profundezas. 
No labirinto de teus caminhos delirantes, descubro um mundo que crio e possuo.
Na minha miséria, descobri a grandeza de apenas ser. 
Eu te tenho por me ter, e basta. 
Bastar-se parece tão grande que dá medo de apenas bastar-se. 

Não me mostre sua doçura, sua gentileza. Quererei saciar-me contigo e aprisioná-la até que meu desejo se consuma por inteiro.

Somos o que percebemos? Percebemos o que somos? 

Precisava dar-me a insignificância necessária para poder ser, apenas. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Praça Tiradentes

Gordura, cigarro,
cerveja, perfume barato.

Um chão que gruda
entre paredes sujas.

Limões no mictório,
bregas na vitrola.

Homens de pernas cruzadas
acompanhados de seu cansaço.

Mulheres da vida são flores
 à espera do beija-flor.

Meu amor não vem,
e desenho com os olhos
essa humanidade tão decente.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Rascunhos de uma mesa de bar (09/12/2014)

Na tristeza desta ausência,
existe a sutil alegria de um mundo
para além da minha vontade.

E nas outras vontades com que me esbarro,
nas outras vontades em que me me encontro,
nas outras vontades que se desviam, 
nas outras vontades que me elevam ao desvario,
sou apenas eu, sem saber.

Ainda bem.

E por pior que seja, sempre existe o dia seguinte,
e uma tal de esperança. 

domingo, 23 de novembro de 2014

23/11/2014

Desprender do que te apega, completar com o que te falta.
Haverá sempre um apego, alguma precisão.
Assim com esta angústia de incompletude,
esta vontade de libertação,
que deveríamos chamar de vida. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Desencoantro

Com sua distância,
se foi a fantasia,

Voltei a errância,
do sem-ti parecia.

Nem a lembrança,
de remédio, servia.

Sem evitar os perantes
que no mundo havia,

encontrei circunstâncias
e mais um todavia

pelo qual nova andança
rumei estrada perdida.

A chamei Desesperança
pois achei real magia

quando em mim assanha
quem no tempo habita.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Alguns motivos para beber

[Segunda à noite, 01/09, após um dia de trabalho, sento num bar na esquina do beco dos barbeiros com a rua do Carmo. Peço uma Brahma e abro o caderno. Ainda não são 19 horas.]

Bebo a desgraça
Bebo a dificuldade com a solidão
Bebo as frustrações
Bebo o inconformismo com a crueldade das pessoas
Bebo a miséria da minha auto-confiança
Bebo as desilusões das ilusões criadas na noite anterior
Bebo a impaciência com a monotonia cotidiana.
Bebo a incapacidade de sentir
Bebo pra ter fantasias
Bebo para desfazer-me das fantasias
Bebo a culpa cristã dos meus erros
Bebo pra saber quem sou
Bebo pra esquecer quem sou
Bebo a ausência de sentido
Bebo para alguma coisa ter sentido
Bebo minhas covardias
Bebo pra ter coragem amanhã
Bebo o fim do dia
Bebo pra inaugurar novo dia
Bebo uma vida não vivida
Bebo pra fingir viver
Bebo pra não viver
Bebo minha perdição
Bebo pra não me perder