quinta-feira, 30 de abril de 2009

ILUSÃO

Imagino que por volta das três. Meia dúzia de homens bêbados vagando pelas desertas ruas de Niterói. Existe um destino, Oásis, nome sugestivo à circunstância. Um conhecido afiançara o nome para a entrada gratuita. De nada adiantou. Rateando por todos, garantimos uma cortesia. Cinqüenta contos e quinze latas de cerveja.

A casa está cheia. Luzes piscando, funk alto. Dor de cabeça e azia. Umas dez mulheres de lingerie tentam garantir a noite. Jackson está chato, me enchendo com um discurso hipócrita sobre a humanidade das putas e seus sentimentos. Afirmo-lhe a razão, mas pouco importa. Não é o momento, muito menos o lugar para reflexões profundas sobre a condição humana.

Estou enfastiado. Sentado no palco, olho para bundas e peitos nus, morrendo de tesão e sem um puto para saciá-lo. Bendita decisão de deixar o VISA em casa, penso com meus botões. Me sinto solitário. O ambiente tira a vontade de qualquer conversa. Era o que imaginava.

Saindo dos fundos do salão, uma morena alta, robusta , com um belo rosto, encosta-se numa parede próxima. A timidez me impede de dar-lhe atenção. Sinto um toque leve no lóbulo da orelha. Volto-lhe com um olhar gentil e um sorriso sem jeito. Novamente o mesmo gesto. Tomo coragem e puxo-lhe pela mão. Se chama Rossana, e me acha uma gracinha. Forjo uma risada irônica, dizendo-lhe que aquele elogio já valera pelo dia. Tapando a face com as mãos, a moça finge um enrubescimento, não sei se realmente existente.

Papeamos de forma amorosa. Digo-lhe palavras bonitas, elogiando a beleza de seus grandes olhos claros e brinco afirmando que, se pudesse, apresentaria-lhe à minha mãe. Demonstrando carinho, Rossana aconchega sua cabeça em meu peito, e sobrepõe suas pernas às minhas. Envolvo meus braços em suas costas, e ponho-me a acariciar seus cabelos. Com a outra mão livre, aliso a sua delicadamente. Sinto vontade de beijá-la. Sacando meu frouxo estilo, começa me prometendo namoro; depois beijos apaixonados; depois um boquete; depois o Céu. Digo que adoraria tudo, namorar e beijá-la, até o fim dos dias, mas que naquela noite seria impossível. Prometo-lhe um futuro próximo em que tudo se realizaria.

Sustenta-se um silêncio por alguns minutos, nos quais observamos a dança sexual das outras moças. Tento puxar novamente uma conversa, mas em vão. Diz que vai se maquiar, e elegantemente se dirige ao banheiro imundo. Não mais volta.

No decorrer da madrugada, cruzara com ela algumas vezes pela boate, sempre acompanhada de outros. Sabedor da impossibilidade de proporcionar a verdadeira satisfação aquela moça, não me sinto triste. Penso por alguns momentos na possibilidade de cumprir aquela promessa. Possivelmente, não fará a menor diferença para ela, que assim como brutos, deve conviver usualmente com tipos ingênuos como eu. Aproveito contente até a alvorada, saciado da ilusão de ter e ser amado, mesmo que por alguns míseros minutos.

domingo, 5 de abril de 2009

Lábios

Puxando-lhe o pescoço, toquei seus lábios
nunca provei suspiros tão doces.
Segurando-lhe as coxas, encontrei seus lábios
os agudos penetraram-me a espinha.
Havia descoberto a vocação dos meus lábios
Porém quando deixastes meus lábios solitários
eles só haviam de machucar
Por isso você foi embora, levando os seus lábios.
Peguei uma faca e então arranquei os meus,
pois neles só ficaram o que de pior há em mim,
O adeus dos seus lábios.

sábado, 28 de março de 2009

NOIR (PARTE 1)

A música dava uma boa atmosfera ao lugar. Na junkebox, Jamelão cantava Lupcínio Rodrigues,tristes letras de amores perdidos. No antro chamado Vila Mimosa, aquele era o único lugar realmente decente e agradável. Tinha sim cheiro de perfume barato, mas infinitamente mais suportável perto do odor sufocante de latrina que permeava os becos do mais famoso baixo meretrício do Rio de Janeiro.

Aquele pequeno cabaret não era mais luxuoso que os outros, mas era para mim como um segundo lar. Josefina no balcão não deixava que a minha tranquilidade fosse pertubada. Totalmente descomposturado, bebia a minha quinta garrafa de Brahma. No cinzeiro, dezenas de guimbas de Hollywood vermelho confirmavam o meu desejo de morrer antes da próxima década. Eram três horas e quinze minutos. Alguns velhos senhores também refastelavam na casa o fim de mais uma semana ordinária , viajando no anestésico dado pela cachaça. Era o único menor de 30 no estabelecimento, e me sentia de certa forma honrado por aquelas companhias e pelo status conseguido no recinto.

Madeleine, a puta mais nova do lugar, aprochegou-se:

- Oi gostoso?

Respondi com um aceno de cabeça mal humorado, sem dirigir-lhe o olhar:

- E aí, meu bem, pronto para um sexo gostoso?

Josefina percebeu que a importuna me desgostava:

- Madeleine, venha cá! Leve a bebida do Fogaça.

Claro que gostava de mulheres, e admirava intensamente aquelas que me cercavam naquele momento. As manchas em suas peles denunciavam que aquela vida não era nada fácil, ao contrário do que enunciava um dos inúmeros sinônimos para a profissão mais antiga do mundo. Submetiam-se aos mais ignóbeis e nojentos meliantes da face da Terra, e não havia escolha, aquele era o ganha-pão das moças. Exatamente esse respeito que me impedia de manter qualquer contato sexual com elas. Gostava de beber, ouvir as músicas do tempo de meu avô, sentir aquela tristeza degradante que me aquietava o espírito após o ritmo alucinante deuma semana de trabalho, e depois deixar sempre um dinheiro a mais pela noite sem maiores inquietações. Com a conduta aprovada, nunca pude reclamar de muita coisa.

Josefina devia estar pelos seus cinquenta e cinco anos. Quando jovem, deve ter sido uma bela rapariga. Tinha nariz e lábios finos à européia, e olhos capazes de enfeitiçar o próprio feiticeiro. Desde que abriu sua própria casa, abandonara a vida. Passara uma infância difícil em Nova Iguaçú, alvo das garras de um pai violento e um irmão molestador. Antes dos 15, já abortara duas vezes, ambas do irmão. Seu pai a arrebentou de pancada em ambas, debaixo de "vacas" e "putas". Se tornou uma não pela sugestão, mas porque não era sequer alfabetizada e aquele foi o único modo que achou de sobreviver. Os homens que aguentou durante toda a vida eram o paraíso perto do que acumulara de seu pai e irmão. Porém, mesmo debaixo de tamanha amargura, sobrara-lhe o gosto pelo vasto repertório musical dos anos 40 e 50, que ouvia da vitrola do seu pai sempre após apanhar. Tenho a impressão de que aqueles cantos de lamúria deram, de alguma forma, vazão a toda sua dor e sofrimento, contando estórias de homens que sofriam por mulheres. O que Freud diria de uma mulher que, mesmo tão oprimida pelo oposto sexo, encontraria consolo em vozes tão viris como as de Nelson Gonçalves e Orlando Silva?! Foda-se!

Próximo às seis, meia caixa e dois maços depois, saí enxergando mais do que devia, meio cambaleante, mas ainda pleno para caminhar até minha casa. Durante o caminho, dois vômitos voluntários, aprendizado de anos nessa vida. Às custas, cheguei ao meu "apartamento" na Barão de Iguatemi. Acordaria na tarde seguinte com a cama suja do estorno etílico e uma baita dor de cabeça. Há algum tempo atrás, ficaria moralmente abalado, pensaria em sair dessa, ficar saudável e levar uma vida digna. Com o tempo, acabei percebendo que o que chamam "dignidade" é somente mais uma forma de controle social, e achei nesse pensamento a verdade necessária para legitimar minha decadência . Infelizmente, não causava ameaça alguma ao sistema. Pelo menos era o que pensava.

domingo, 15 de março de 2009

Esboço

(Numa sala iluminada pelo sol da manhã, emerge da escuridão um jovem cabisbaixo, de olhar tristonho e com os braços recolhidos junto ao corpo. Sem encarar diretamente a platéia, o rapaz começa a falar.)

De vez em quando, alguns pensamentos me invadem, me corroendo por dentro. São sentidos fisicamente,como se algo estivesse devorando-me o peito. Sinto vontade de extirpar essa chaga que me impede o bem-estar. O sol brilha lá fora, e seus raios adentram a janela. Repugno a vida imersa na claridade invasora, quero ter amigos, estar e gostar de praia, ter o que fazer, algo com o que ocupar a cabeça. O máximo que consigo é acender um cigarro. (Tira do bolso um maço e acende um cigarro) Minha dor e a minha juventude se esvaem a cada tragada, entorpecendo meu cérebro, roubando-me o fôlego. O ponteiro menor do relógio encontra-se quase estabelecido no onze.As horas não passam, mas mesmo assim o tempo é cruelmente rápido. Deus! Vinte e cinco anos. A vitalidade se esgota entre baforadas e lamentações, e nada realizei ainda! Faltam-me palavras para articular a vida. Tantos pensamentos que não encontram expressão na língua nativa. Deveria ter nascido em outro país. Quanta estupidez!! Será que é muito cedo para recomeçar tudo de novo? Tudo vale a pena quando a alma não é pequena, dizia o poeta. Será que a minha alma, cheia de medos e recalques, presa nos horizontes sociais de sucesso e fracasso, é pequena? O que vale a pena?
(Uma claridade mais intensa impele o rapaz novamente para a escuridão, dando as costas para a platéia e saindo de cena.)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Estórias para adultos

(Os personagens dessa estória são meramente ficcionais, e qualquer possível semelhança trata-se de uma mera e infeliz coincidência)

Durante minha infância, o mundo se movia de forma distinta. Parecia que todos eram aquilo mesmo que aparentavam e que não havia nada a mais. Quando aparecia algo que perturbava esse equilíbrio, como uma morte, era um choque, algo que punha em xeque o que estava em harmonia. Mas logo o jogo de videogame, um gostoso sorvete ou o episodio inédito dos Cavaleiros do Zodíaco trazia de novo as coisas para o seu devido lugar. E tudo era novamente uma brincadeira, para não ser compreendido e levado a sério.

Assim, muitas coisas ficaram mal-resolvidas em minha vida. Postas no campo do proibido, do intocado, do que era o mal. Não posso negar que também sempre me faltou coragem para querer realmente superar essas barreiras. Fui criado tendo na escola, nos esportes que praticava nos clubes perto de casa, na pracinha onde brincava nas manhãs de domingo, os únicos lugares permitidos para fazer amigos, e mesmo assim sobre o olhar atento de ¨responsáveis¨. Ficava a maioria do tempo entre as quatro paredes do meu apartamento, driblando com a bola de futebol os móveis de casa, jogando o meu Dynavision, assistindo a filmes de Sessão da Tarde e seriados de tv. É incrível o que essas tecnologias e mídias podem fazer com as crianças.

Tudo o que fosse possível para evitar o constrangimento, o conflito, o mal-estar, a dor. Essa foi a fórmula que, inconscientemente, aprendi em casa e levei para a vida. Cresci assim. Sempre fui um moleque inteligente, que aprendia rápido as coisas na escola e passava de ano sem recuperação, mas que no resto, e verdadeiramente importante, era um desastre. Tinha medo, de me declarar para uma menina, de enfrentar os meus pais, de fazer as coisas erradas (e provar se elas eram mesmo erradas). Nunca matei aula para fumar, tomar vinho ou ir aos jogos do Vasco.

De todas as minhas covardias, as maiores foram àquelas relacionadas à expressão de sentimentos. Quando era criança, beijava os meus pais, meus avós, meus padrinhos, mas sempre foram beijos de formalidade. O afeto sempre me foi alheio e não aprendi a expressá-lo direito. Quantas meninas não deixei passar por vergonha de mostrar-lhes o que sentia?! E sobressaí hoje essa aparência da pessoa fria, meio sem jeito, meio mongol, sem iniciativa, exatamente porque nunca me arrisquei, nunca me lancei sem medo em nada. Ainda tenho vergonha de beijar o meu pai, e não consigo chama-lo para uma cerveja pois existe algo dentro de mim que me embaraça em assumir o hábito de beber. Eu tenho vinte e quatro anos.

Porém, a infância não me guarda somente coisas tristes, ou explicações originárias para as minhas atuais frustrações. Se existem coisas que, mesmo depois que crescemos, permanecem num lugar intocado, outras acabam se desmistificando. Sabe, quando fui ficando mais velho, a minha família começou a ficar chata. Não havia nada de interessante, somente estórias de casais perfeitos, de filhos bem criados. Aos poucos, porém, os "podres" começaram a aparecer, e pude perceber que a minha família era bem mais interessante do que eu imaginava.

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A nostalgia é o passado que se faz presente e determina nosso futuro. (Alfredo Bryce Echenique)

Morei durante dez anos da minha vida no apartamento oito-zero-quatro do número três-sete-meia da rua Hadock Lobo. No quinto andar, morava a irmã da minha avó, a tia Arlete, a quem chamava de Dinha (apesar de não ser a minha madrinha de fato). Junto com ela, morava o meu padrinho (de verdade), a quem todos sempre chamavam de Quinha (e só mais tarde me dei conta de que não era esse o seu nome), e o esposo dela, o tio Hélio. Apesar de serem todos velhos, o apartamento da Tia Arlete foi o lugar no qual mais me diverti durante a minha infância. Quase todo o dia, à noite, descia lá com a minha avó, e ficávamos todos na sala, enquanto as novelas da noite passavam na TV. Sentado na cadeira de balanço, conversava em altos brados com o meu padrinho, ouvindo atenciosamente suas estórias de bravura em Sumidouro- cidadezinha próxima à Nova Friburgo, onde crescera- e de sua breve passagem pela Aeronáutica. Eram estórias de brigas - por mulheres e por orgulho - de caçar animais e passarinhos com armadilhas e espingardas de ar comprimido, de grandes pescarias no Paraíba do Sul, de pegar peixes do tamanho de canoas e enfrentar a nado as correntezas do bravo rio. Sempre prometia me levar à Sumidouro para vivermos grandes aventuras, e sempre sonhei com esse dia.

Não, ele nunca chegou. Quando tinha oito, ou nove anos, Tia Arlete morreu. Poucos meses depois, Tio Hélio e Quinha se mudaram para um apartamento no mesmo bairro, mas longe o suficiente para uma criança superprotegida ir visitar. Mais ou menos um ano depois, também mudamos, só que para São Cristovão. Durante algum tempo, Quinha ainda ia me pegar para nossas tradicionais pescarias no Aterro do Flamengo (às quais adorava, apesar de não pegar mais do que um peixe e ficar dias com a pele queimando por causa do Sol), mas essas saídas ficaram cada vez mais escassas. Os anos se passaram, e também aquela idolatria de criança. Por causa do problema de alcoolismo de Tio Hélio, o filho foi obrigado a mandá-lo para um asilo. Sem ter onde ficar, Quinha voltou para a sua terra natal. Depois de um certo tempo, ele passara a apenas mais um parente com quem às vezes falava no telefone.

Cinco anos depois, saímos de São Cristóvão e voltamos a morar na Tijuca. Num dia desses, sem nada de especial, veio a notícia, com a mesma banalidade do dia. O filho do Tio Hélio ligou para nossa casa, e informara, no meio de outras notícias, que o meu padrinho havia morrido, não naquele dia, mas há meses atrás. Minha avó me deu a notícia, a qual reagi com indiferença, pois aquela morte era de alguém que há muito havia se desligado da minha vida, que não era mais importante. Mas hoje, bons anos depois, nessa exata madrugada do dia vinte e cinco de janeiro de dois mil e nove, posso afirmar uma ponta de revolta, com a aparência de hipocrisia, mas profundamente nostálgica. Aquele homem fora o herói da minha infância, o avô que não tive, quem me forneceu a matéria-prima para imaginar algo além da minha realidade alienada, e ele morreu assim, num dia qualquer, num leito anônimo de hospital público, sem lágrimas, sem ninguém para lhe dar o aconchego do último momento. E a mim foi privado sentir essa morte, tanto pelas circunstâncias físicas que me afastavam daquele lugar e daquele homem; quanto pelas circunstâncias fornecidas pela vida, que afastavam todo o meu afeto. Alguns caminhos tomados pela vida são realmente injustos e tristes.

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Se o apartamento da tia Arlete fora um lugar de muitas alegrias durante a minha infância, ele também escondia segredos inconfessáveis para uma criança. Essas estórias só me foram contadas muito tempo depois, e dosadamente, à medida que ouvia algo escapar furtivamente e perguntava sobre o assunto. Já na idade certa de saber as “coisas sujas”, o esmero familiar em omitir certas informações havia desaparecido.

Nunca fui de indagar as razões de Tia Arlete, Quinha e Tio Hélio residirem juntos. Afinal, Quinha era meu padrinho, logo parente, então era como se o lugar dele não precisasse de justificativas. Tudo era tratado com tanta naturalidade, que realmente parecia que não havia nada de errado, ou imoral, naquela relação. Mas a vida é bem mais complicada e interessante do que um mero quadro de relações de parentesco.

Vou tentar reconstituir os fatos através dos detalhes esparsos guardados pela minha memória, recolhidos dos diversos relatos de minha avó, meu pai e minha mãe. Não sei ao certo datar quando essa estória começa, mas creio que seja por volta de meados dos anos 1950. O irmão da minha avó, o falecido tio Ricardo, conhecera aqui no Rio de Janeiro uma mulher chamada Zezé, apaixonou-se e casou-se com ela. Zezé tinha também uma estória enrolada, era dada a trambiques e gostava muito de homens, mas o que nos importa agora é saber que a sua família era de Sumidouro. Assim, para os parentes do Tio Ricardo, a cidadezinha interiorana passou a ser um lugar para visitar, não sei se somente a passeio, a trabalho ou para férias prolongadas. Um fato curioso dessa ligação com Sumidouro é que a maior parte das mulheres ligadas à família de minha avó começou a recrutar, entre a população muito pobre e iletrada sumidorense, pessoas para trabalhar como empregados domésticos. Posso dizer, pelo menos do que já ouvi, que era algo quase como trabalho escravo, e à época que tomei conhecimento dessas coisas, fiquei bastante revoltado.

Fechando os parênteses, Tia Arlete e a minha avó – ambas casadas – também começaram a visitar Sumidouro. Meu avô, em seu trabalho de costureiro, ganhara muito dinheiro por lá, na venda de roupas confeccionadas por ele. Sobre a Tia Arlete, não sei de que maneira isso ocorreu, também não tenho provas suficientes para provar o que aqui escrevo, mas dizem as más (ou verdadeiras) línguas, que se apaixonara por um jovem rapaz, de nome José Soares.

Vieram para o Rio de Janeiro, e o mancebo sumidorense veio junto. De acordo com estórias de infância de meu pai, posso presumir que José Soares já morava naquela época, décadas de 1960 e 1970, com a Tia Arlete e Tio Hélio. Trabalhara em fábricas e no aeroporto do Galeão, e em muito desses empregos, Tio Hélio e Quinha foram companheiros. Era engraçado, pois quando criança, ouvia muitas estórias de compadrio entre ambos, com um certo ar nostálgico, de boas pescarias e ¨causos¨. Mas outras, ouvidas posteriormente, narravam a rotina de um triângulo amoroso formal, marido, mulher e amante, vivendo sob o mesmo teto, onde o amante tinha o melhor prato de comida e outras preferências. Essa situação era flagrante na própria compleição física e no comportamento de ambos. Tio Hélio, desde que me entendo por gente, sempre foi franzino, curvado, fumava feito um condenado e bebia mais ainda. Já Quinha sempre teve um belo porte, mesmo depois de velho, era bem disposto, gostava de exercícios físicos, não tinha vícios e estava a toda hora fazendo alguma coisa. Um era encolhido e tímido. O outro, exaltado e brincalhão. O marido humilhado e o garanhão, respectivamente aparente.

Ficara sabendo somente de uma confusão em todo o tempo de três-sete-meia, no qual a minha madrinha de verdade, irmã de meu pai, brigara com a Tia Arlete, e a chamara, para todo o prédio ouvir, de “Dona Flor e seus dois maridos”. Não saberia dimensionar a repercussão desse caso, e talvez por ter sido uma criança muito tapada e presa, não percebesse os murmurinhos em volta. Mesmo dentro da minha família, extremamente conservadora, nunca ouvi um único comentário sobre a tal imoralidade do quinto andar. Pelo contrário, Quinha sempre foi um homem muito respeitado e querido em nossa casa, tanto que sempre existiu uma confiança em meus pais de deixar-me ir com ele aonde quisesse. E apesar das considerações que fiz anteriormente, sobre posturas estereotipadas, o clima na casa deles também fora sempre de muita leveza, de um grande cuidado e fraternidade entre eles.

Quando a Tia Arlete morreu, Tio Hélio e Quinha continuaram a morar juntos, e assim conviveram por uns bons oito anos, sem peso, somente as costumeiras discussões de casal. Uma relação não convencional que durou uma vida. E eu, que sempre achei que o Tio Hélio fosse morrer antes do Quinha, me enganei. Tio Hélio continua vivo, embora não muito lúcido, numa casa de repouso na rua Santa Alexandrina. Fazia visitas ocasionais, nos fins de semana, que foram diminuindo gradualmente. O único não-judeu do lugar. Uma solidão imerecida.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Primeira Infância

Hoje é feriado de São Sebastião aqui no Rio de Janeiro. Esse dia me trás a cabeça algumas estórias de minha primeira infância, contadas e recontadas em casa durante toda a minha vida.

Esta poderia ser uma estória de negligência médica terminada em mais uma morte inocente. Se entendi bem, assim que nasci, os médicos esqueceram de retirar-me o líquido amniótico, ou placenta, que geralmente fica dentro dos bebês após o parto. Como todos aqueles que curtem o primeiro filho homem, meu pai olhava-me no berçário, e então percebeu que havia algo de errado. A minha cor estava mudando, a pele ficando roxa e a respiração fraca. Desesperado, gritou pelas enfermeiras. Mais alguns minutos, teria morrido sufocado.

Alojando-se nos pulmões, o líquido fez-me desenvolver um quadro de pneumonia. Com a saúde precária de um recém-nascido, havia risco de morte. Por essa ocasião, meu avô fez uma promessa a São Sebastião, prometendo, em troca da preservação do seu neto, levar-me todo o ano a Igreja dos Capuchinhos, no feriado do santo, vestido inteiramente de vermelho.

Não sei se por causa da promessa, mas hoje estou aqui para contar esta estória. Meu avô morreu pouco mais de um ano após o meu nascimento. Não teve a oportunidade de viver para cumprir a sua promessa, mas lembro-me vagamente, em reminiscências, de ser levado a Igreja em um certo dia do ano, de muito calor, vestido com um blusão vermelho de botões. Não me recordo direito quem me levava, mas possivelmente era a minha tia-avó, que cresci chamando de madrinha (apesar de não ser, e talvez aí encontre-se a razão de assim chamá-la) e esse ritual deve ter sido cumprido até os meus cinco ou seis anos de idade.

Outra das estórias de primeira infância diz respeito ao leite que me nutriu. Por motivos que até hoje desconheço, o leite da minha mãe secou. Durante meses, fui indiretamente amamentado pelo leite de outras mulheres, destinado a outros filhos e filhas, conseguido pelo esforço de um tal Seu Flávio. Ouvi sempre, com um doce tom de gratidão, que ele botava o morro do Turano abaixo atrás de leite para mim. Esse generoso homem era nosso vizinho quando morávamos no 376 da Hadock Lobo, mas cujo rosto não me recordo, pois cedo se separou da mulher e foi embora de casa.

Dessas mulheres, somente duas entraram na minha vida de alguma forma. Uma, porteira de um prédio na Hadock Lobo, negra, pobre, moradora do morro do Turano, fumante. Sempre passo por ela, sabendo quem é, mas indiferente, como se fosse uma pessoa qualquer. A outra, de nome Sueli, também muito pobre, também moradora do morro, também negra, também fumante, tem uma penca de filhos e viveu metida com bandidos. Trabalha como faxineira nas casas da classe média tijucana, e visita eventualmente a minha residência. Sua figura não me agrada, é arrogante e tem um jeito grosseiro de se expressar, além de estar sempre interessada em dinheiro ou algo a ser dado, o que gasta com cervejas em alguma birosca de favela. A essas mulheres, devo o meu primeiro alimento. Qualquer outra possível relação é uma mera questão de fé.

Nasci no dia treze de maio, num domingo de dias das mães, de Nossa Senhora de Fátima, da Abolição da Escravidão, e principalmente, dos preto-velho. Todo o ano, vovó põe um copo do primeiro café desse dia na janela, que lá fica até o primeiro café do dia seguinte ser feito. É uma crendice que me causa uma grande simpatia, e se não produz efeito algum, mal também não pode fazer. É o nosso cristianismo de superfície, como lamentaria Sérgio Buarque de Holanda e celebraria Gilberto Freyre, que se nos impediu de desenvolver uma fé interior, uma aescese na própria vida, nos guardou esse paganismo bonito, de relações pessoais e quase afetiva com os santos. Mas essa é outra discussão.

Na minha primeira infância, meu pai foi herói, meu avô mártir, bebi do leite de negras e fui salvo por milagre. Uma típica mitologia brasileira.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sem título

Não quero rosas nem utensílios domésticos
só quero a flor que brota do seu corpo
e com o que você chama de amor
vem me oferecer.