sábado, 19 de novembro de 2016

Insight

Convivo mal com a abstinência
tanto quanto amores perdidos.
Esta falta que me faz
e a que tanto dedico
é a minha insensatez
de suportar a vida. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Sozinho

Ando tão sozinho comigo
que aprecio o toque do tempo
 no vento da noite.

Ando tão sozinho comigo
que respiro pelas narinas
o oxigênio existente.

Ando tão sozinho comigo
que até encontro
meu espírito presente.
(inclusive acredito)

Ando tão sozinho comigo,
tão sem pressa da vida,
um destemido sem valentia.

Ando tão sozinho comigo.
Acordado e tranquilo
com vozes, cores, odores.

Ando tão sozinho comigo
que nem as dores
me tiram de mim.

Ando tão sozinho comigo
quase entorpecido
a tudo sentindo.

Ando tão sozinho comigo
que até percebo

que existo.

sábado, 3 de setembro de 2016

Caminho

Nos desencontramos, mas nunca nos perdemos.

Estou no meu caminho, que passa por você e o mundo inteiro.
Você e o mundo inteiro foi a rota que tracei.
Desconheço o que é você e o mundo inteiro,
mas o mundo inteiro é você que quero.

Não preciso saber o mundo inteiro para querê-lo,
assim como a você.
Porque pra te querer tem que ter o mundo inteiro,
e não existe o mundo inteiro sem você.

Eu, você, o mundo inteiro.

Caminho.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Notas dispersas

E quando saímos à rua, olhamos e sentimos em busca, sem saber o que falta entre nós. Tentamos preencher com o mundo ao nosso alcance e atingimos o pleno por pouco tempo. O corpo dorme, e descemos da altitude à depressão de quando abrimos os olhos. Não nos contentamos, e vivemos à espera.
Somente descobrimos quando compreendemos a falta como nossa humanidade inevitável e desistimos de saber.

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Esperava paciente o momento em que as ondas chegariam. Quando as senti penetrando o salão, o convite para o abraço foi minha escolha pela fatalidade. Se não houvesse permissão, nos salvaríamos. Não quisemos, e afundamos pouco a pouco na fluidez de nosso peso desfeito sob a força em movimento do que nos afogava. Passamos a existir numa totalidade que nos preenchia , ondas, eu, ela, o espaço.
Abrimos os olhos para a salvação indesejada. Cúmplices, nos despedimos, à espera da próxima inundação.
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sexta-feira, 1 de julho de 2016

Descrição de sonho

Manhã de primeiro de julho.

Embarcava clandestinamente na estação de trem subindo pela plataforma. Parecia Campo Grande. Aproximadamente três homens, talvez brancos, aproximavam-se, ameaçadores. Um deles carregava um bastão que parecia um cano de pvc. Sinto a ameaça, mas sou alcançado e o homem me derruba num ataque com o bastão nas minhas pernas.

Os homens me cercam, mas consigo levantar e subo pelas escadas da estação. Vislumbro  a vontade de pular sobre a composição que chegava à estação. Há um lapso e me vejo andando por ruas escuras. Nas portas das lojas fechadas, observo moradores de rua, de aparência suja, se preparando para dormir. Sigo caminhando e observando, amendrontado.

Sinto-me impregnado pela marginalidade que me cerca.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Sonho

Hoje de madrugada dirigi três horas e meia rumo ao Sul. Era início de Carnaval. Cheguei a uma localidade próxima a fronteira com a Colômbia e quase fui, mas regressei para o Carnaval.

Não sei dirigir e a fronteira com a Colômbia fica ao Norte. Tive pena de ter acordado e descoberto que não era Carnaval.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Carta de amor


Não recordamos e todo esforço seria vão. Se soubéssemos, toda a existência deixaria o tempo. “No começo era o verbo, e o verbo era Deus.” Fomos pré-mitológicos porque somos de antes do verbo. Viemos da anti-matéria de vontade pura. Naquela amemorialidade, havíamos em reticências de cosmos, tantos e tamanhos quanto o imensurável, o incalculável, o intraduzível. A Ausência tão imensa quanto o reverso último da onipotência

Acho que a primeira lembrança foi o início. Começou no exato instante em que indaguei se estávamos certos. Não recordo dos objetos das certezas porque não existiam. Foi a palavra nosso pecado original, pois dela nasceu o mundo. O certo deu a partida do tempo que foi pensamento. Pensamento é semente forte que brota em qualquer terreno e aflora. E tudo o que vinga um dia morre.

Te indaguei a palavra e também começastes a pensar. Tentastes recusar inutilmente, pois depois do som logo semeou. Apareceu a mudança. Era inevitável que com o certo viesse o errado, e já eram duas sementes. Não tivemos escolha e nascemos.

Começamos a nos reparar o que antes apenas víamos, e tentamos fazer o certo. Apareceu o respeito mútuo, as noções de espaço e tempo alheios. Da palavra brotada em pensamento floresceu o mundo, e recusá-lo era errado.

Tivemos, e tudo o que tínhamos passou a ser nosso. Viver era o rastro deixado pela extensão dos planos efetuados nas horas, dias, anos. Chamávamos de conquista o acúmulo do que passávamos pelo tempo. Mas viver nunca bastava, sempre significava, nos despistando de nossas necessidades inexistentes. Descobrimos assim a infertilidade das ervas daninhas, diziam que éramos felizes, ainda dizem e de fato nos achamos nesta condição.

Não sabemos nossa fertilidade porque ainda é pouco, tão pouco que sempre será por mais que seja. Nos amamos pelo que nos falta.

Um dia nos reencontraremos aquilo que era antes do mundo. Este imenso nada que nos falta. Como o coração de um buraco negro.