É madrugada, e as únicas luzes acesas são as da tela do
computador e a do corredor do andar, que transpassa a janelinha da porta de
entrada. Chove e faz um frio ameno. Ouço os pingos, o vento balançando
as folhas da mangueira do terreno ao lado. Quando em vez, um barulho de fruta
caindo.
Estou sem sono. Cafés, mais a maldita sesta. Todos dormem em
casa. Tento fazer os olhos pesarem assistindo à filmes no computador. Não vou
pegar em textos hoje. Amanhã acordo às oito. Ouço passos no corredor.
Intermitentes, parecem se esconder. Chaves destravando a fechadura. A porta
abre, fecha. Toda a madrugada é assim.
Um som é só um som. Seria bom acreditar. Passos seriam
somente passos, se não me informassem diariamente as estatísticas sobre o
aumento de assaltos à residências. Portas abrindo de madrugada significariam
apenas a existência de pessoas com hábitos noturnos, se acreditasse que na vida
não tenho nada a perder. As folhas a caírem das arvores seriam um inofensivo
movimento da natureza, se qualquer bicho não domesticado maior do que a minha
unha não me deixasse terrificado. A ameaça permeia o tecido do escuro e do
silêncio.
Essa não é uma hora boa para passos e fechaduras. É contra o
fluxo da vida, a ordem do mundo. Num prédio residencial à uma da manhã deve
reinar o mais absoluto silêncio. Logo, sob a sugestão da solidão e da
escuridão, sem às vozes costumeiras do dia, tudo é estranho, prenúncio de
perigo, aviso para o medo. Onde deveria reinar a paz, ressente-se pela falta do
conhecido e inofensivo, as vozes, o movimento e a luz. A cada ruído inesperado,
um arrepio, um suspiro, um pulsar mais acelerado. O stress piora a minha insônia.
Resisto a cama, pois se existe algo pior que essa realidade
de filme de terror, são os pesadelos que
costumam me assombrar quando forço um sono inexistente. Acordar com o grito
engasgado, com aquele fremido mais assustador do que o próprio pesadelo.
Malditos cigarros, que me põem a dormir de boca aberta. Ficar acordado é uma opção entre os fantasmas
do sonho e os que existem em cada ruído. Escolho o segundo, o que com o tempo,
acabo por aceitar bem. Nunca nada acontece, apesar de sempre parecer que vai.
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