Outro dia um amigo me disse: -Marcelo, pára com isso de ser meu amigo, você é o Marcelo.
Descobri ontem que esse Marcelo não é facilmente reconhecível. Onde estão suas estórias, aventuras e desventuras? Quais são as suas paixões, seus sonhos, e principalmente as suas vontades?
Acordei sem esse horizonte, do sujeito que se auto-reconhece, e nos primeiros momentos é difícil viver assim.
domingo, 30 de maio de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Uma grande mulher
Ela tinha uma inocência poética nas palavras
Certa vez, ao assistir um céu noturno cheio de estrelas, disse que parecia poder pegá-las com as mãos
[Foi o instante em que me apaixonei]
Tratava com a mesma delicadeza e generosidade o doutor e o mendigo
Fazia do trabalho um complemento necessário de sua vida, não estabelecendo distinções ou subtraindo-lhe as pessoas que amava
Esperava sempre o melhor do outro, mesmo que este lhe mostrasse a face mais cruel
Nunca conheci mulher igual, e olha que tinha aquele sotaque detestável, embora em sua boca parecesse o canto dos anjos
Sempre penso nela, e ao fazer isso, animo-me a enfrentar as asperezas do dia
Me faz querer ser um grande homem e lutar para melhorar o mundo pelo simples fato deste incluí-la
[a propósito, saber que ela existe me faz ver beleza em tudo]
Eu a conheci há um tempo, não saberia precisar, porque essa memória intensamente viva me causa a impressão de que acabei de encontrá-la.
Infelizmente, intangível, devota seu amor a outro
Devo a isso a eternidade do sentimento
P.S.:Amando sempre como um garoto de 12 anos, e feliz.
Certa vez, ao assistir um céu noturno cheio de estrelas, disse que parecia poder pegá-las com as mãos
[Foi o instante em que me apaixonei]
Tratava com a mesma delicadeza e generosidade o doutor e o mendigo
Fazia do trabalho um complemento necessário de sua vida, não estabelecendo distinções ou subtraindo-lhe as pessoas que amava
Esperava sempre o melhor do outro, mesmo que este lhe mostrasse a face mais cruel
Nunca conheci mulher igual, e olha que tinha aquele sotaque detestável, embora em sua boca parecesse o canto dos anjos
Sempre penso nela, e ao fazer isso, animo-me a enfrentar as asperezas do dia
Me faz querer ser um grande homem e lutar para melhorar o mundo pelo simples fato deste incluí-la
[a propósito, saber que ela existe me faz ver beleza em tudo]
Eu a conheci há um tempo, não saberia precisar, porque essa memória intensamente viva me causa a impressão de que acabei de encontrá-la.
Infelizmente, intangível, devota seu amor a outro
Devo a isso a eternidade do sentimento
P.S.:Amando sempre como um garoto de 12 anos, e feliz.
domingo, 2 de maio de 2010
Decadence (parte 1)
Esta é uma estória em duas, mais compreensível seria se fossem duas em uma, mas será o homem um apenas, ou será que numa vida cabe mais que um? Esta poderia ser dita como a estória de realidade e sonho, mas o texto é um, o que elimina qualquer distinção, sendo os dois estória, tão real o sonho quanto tão sonhada a vida, é tudo palavra, é tudo imaginação.
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A atmosfera do minúsculo apartamento era literalmente tóxica. Ao visitante desavisado, aquele ambiente fazia arder aos olhos e faltar o ar. As duas únicas janelas davam uma para o muro do prédio vizinho, a outra para a asquerosa área de serviço do andar. Ambas trancadas.
Eram três da madrugada no relógio de parede da pequena cozinha. Sobre a pia, copos e mais copos sujos se acumulavam. Em um canto qualquer, a cafeteira permanentemente ligada aquecia um resto de bebida. Não havia geladeira, muito menos fogão.
Uma pequena mureta separava a cozinha do quarto-sala-escritório-casa de João. Estava sentado em frente a uma mesa, e um abajur de madeira pequeno – a única luz acesa - iluminava sua atividade e uma densa mistura de fumaça e poeira. Mais a direita, um pacote de Hollywood vermelho aberto, dois maços vazios amassados, outro pela metade com um isqueiro por cima, um cinzeiro quase transbordando de cinzas e guimbas, com um aceso a queimar. Ao lado esquerdo, contava-se um copo quase vazio de café, que deixava mais uma marca dentre tantas sobre o verniz. Debaixo de seus olhos, um caderno espiral aberto, com o cilindro de arame lotado de vestígios das folhas arrancadas que se espalhavam pelo chão, amassadas.
Uma bic com a carga no final passeava habilmente por entre os dedos de João. A cadeira inclinava-se para trás, projetando seu olhar para o teto. Estava com um gasto casaco jeans, calças de moleton velhas e meias desfiadas. Os cabelos desgrenhados denunciavam o desleixo, os dentes amarelados os vícios, o rosto pálido os dias trancados, as olheiras a insônia.
Havia um estranho silêncio, incomum pela proximidade a rua movimentada. O barulho de sua respiração era alto, e o único que se podia ouvir. Ensimesmado, parecia instigado pelo ritmo de seu peito, sobre o qual a outra mão pousava. O caminho inevitável de uma vida desregrada. Asma, enfisema pulmonar, Câncer de pulmão. O que será que pensava João? Quiçá pudesse ouvir seus pensamentos, mas era impossível. Afinal, quem ouviria? Será que o som do pensamento teria o tom de nossa voz?
Três toques fortes e secos na porta ressoaram pelo apartamento e João despertou de si, quase caindo da cadeira. O susto do barulho acelerou-lhe o coração. Recobrado, levantou-se afastando a mesa, o que fez subir uma grande nuvem de poeira. Pegou o cigarro do cinzeiro e após uma última tragada, o apagou ao levantar. Tossiu carregadamente duas vezes enquanto encaminhava-se a noroeste. Seus passos espalharam as bolas de papel pelo chão.
Olhou pelo olho mágico. Uma mulher de pele branca e cabelos negros encontrava-se do outro lado.
“O que você quer?”
“Foder” - respondeu uma voz desregulada.
“Vá embora, Jane, são três e meia da manhã”
“Abre essa porra logo!”
João abriu, girando a Papaiz e a chave. Cambaleante, Jane entrou no apartamento. Era uma mulher muito atraente, com um vestido verde daquele tecido que dá para sentir a pele. Ela olhou ao seu redor com uma expressão de asco, que se estendia a João.
“Que merda é essa! Isso aqui parece uma casa fantasma. Olha pra você, que lixo! Não quero mais foder.”
“Ótimo, vá embora.” – João abriu novamente a porta.
“Por quê tá falando assim? Não quer foder?”
“Você já disse que não quer, e eu menos ainda. Cai fora.”
“Você e essa merda de livro. Acho que você é viado, João.”
“Pode ser. Caí fora agora!”
Como se fosse de propósito, mas sob os efeitos da bebida, Jane caiu feito pedra no sofá de João, levantando outra nuvem de poeira intensa. João fechou a porta e aproximou-se de Jane. Que corpo era aquele?! Sentia desejo, após tantos dias de clausura. Inclinando o tronco para fora do sofá, Jane começou a vomitar no assoalho de taco. Era o fim do desejo. Deixou o vomito e a mulher onde estavam e voltou à cadeira. Olhando para o teto, acendeu um cigarro, e após uma boa tragada, escreveu uma palavra – decadência.
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O volume da TV na sala aumentou de repente. O teto era branco, e para ele XXXX olhava sem ver. Via seu sonho. Levantou e caminhou à cozinha. Pedofilia novamente. Seus pais não perdiam um dia sequer.
O volume da TV na sala aumentou de repente. O teto era branco, e para ele XXXX olhava sem ver. Via seu sonho. Levantou e caminhou à cozinha. Pedofilia novamente. Seus pais não perdiam um dia sequer.
Colocou o café no copo e sentou-se na mesa da cozinha. As vozes que chegavam da sala comentavam a mesma coisa de todos os dias. “Como é que pode um pai fazer isso com a filha?” “Que monstruosidade.” “Esse homem não tem Deus no coração” “Muda de canal, esse cara é doente”. Todo dia, pelo menos por meia hora, assistia-se ao noticiário sensacionalista que defendia a pena de morte e acusava de antemão a qualquer criminoso que caísse nas suas garras. A TV ficava ligada o dia todo, e afora as novelas, os únicos programas impreterivelmente assistidos eram os noticiários. Todo o dia era arrastão, assaltos, balas perdidas, pedofilia.
XXXX tinha horror a tudo aquilo exatamente pela consciência que tinha de como aqueles programas afetavam a sua vida. Realimentavam o medo da rua com que fora criado desde criança. Crescera em condomínios, sem poder por o pé na rua. “Cuidado, é perigoso” fora a expressão mais ouvida durante toda a sua vida. E tudo era perigoso, sair à noite, conhecer pessoas novas, ir para lugares desconhecidos, tomar decisões. XXXX passara boa parte da vida ansiando pelo inseguro. Vinte anos não vividos.
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Quando se diz que algo está decadente, é normal pensarmos que houve um momento melhor, de sucesso, de desempenho elevado, de maior vitalidade. Não era bem essa acepção que fazia a cabeça de XXXX. Em sua cabeça, este termo tinha a forma de um estilo de vida misógino, egocêntrico, sujo e autodestrutivo. Era antes forma, imagem, do que qualquer outra coisa. A decadência era a sua fantasia de vida ideal, aquela que não tinha coragem de viver, mas que achava extremamente atraente.
Passava algumas horas por dia à frente do computador. Abria um documento de word e ficava alguns momento olhando para a tela com a página em branco. O barulho impertinente que a casa produzia logo o convencia de que era impossível concentração e paciência para escrever seus pensamentos sujos. Na miríade de prazeres oferecida pela internet, pegava-se nos vídeos pornôs, nas fotos de mulheres nuas. Masturbava-se, e o gozo lhe trazia o peso da culpa, de ter sido vencido pela compulsão de seus instintos. Com as mãos limpas, voltava ao PC, onde abria seu software de conversação. Lá construía sua personalidade. Identificava-se como John Milton, escritor inglês do século XVII, mas cuja existência só soube a partir do filme Advogado do Diabo, no qual Al Pacino encarnava o diabo sob a forma humana de um advogado, homônimo ao autor de Paradise Lost. Abaixo, uma citação extraída de um frustrado poeta brasileiro, da geração ultra-romântica: “Tudo é podre no mundo. Que me importa que ele amanhã se esboroe e que desabe, se a natureza para mim está morta”. No espaço reservado para a imagem, uma pintura de 1847, chamada Romans in the Decadence of the Empire, de um francês chamado Thomas Coulture, escolhida por ter sido a única imagem razoavelmente decente que encontrou com a palavra decadence no site de busca.
Com o personagem construído, passava horas e horas conversando nos chats, buscando conversar sobre sua visão de mundo. Como tinha um blog em que despejava sua visão “pessimista” e esbanjava sua erudição de orelha de livro, conseguia atrair algumas mulheres impressionadas com suas referências, e as colecionava na sua lista. Mas nunca saia dali, no máximo para as aulas da faculdade, onde tentava se formar em Literatura. Ampliava a cada dia mais esse mal estar consigo mesmo. Fazia questão de dizer-se odiando, por mais que precisasse sempre conversar. Odiar era um verbo fácil de usar quando se recusava o mundo em nome de uma ficção imaginada. Afinal, era o que praticava todo o tempo.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Dogville e o Leviatã
[Após ser violentada, explorada e acorrentada em Dogville, Grace é libertada pelos capangas de seu pai. Estes a escoltam, até entrar no luxuoso carro do pai mafioso]
(GRACE) Vai justificar suas ações antes de atirar em nós? Essa é nova. Isso poderia ser visto como uma fraqueza, estou decepcionada.
(Pai) Não vou atirar em ninguém.
(GRACE) Já atirou em mim antes.
(Pai) Sim, é verdade, e me arrependo disso. Você fugiu. Mas lhe deu tempo de pensar em algumas coisas, mas é claro que você é teimosa demais.
(GRACE)Se não vai me matar, então porque veio?
(Pai) Naquela nossa conversa, você disse por que não gostava de mim e depois fugiu. Eu quero dizer o que
desaprovo em você. Acho que assim será uma conversa civilizada.
(GRACE) Foi para isso que veio? E chama a mim de teimosa? Não veio aqui me forçar a voltar e a ser como você?
(Pai) Se eu achasse que pudesse forçá-la a voltar, mas isso nunca acontecerá. Você é mais do que bem-vinda. Pode voltar para casa e voltar a ser a minha filha a qualquer hora. Estou até disposto a compartilhar o meu poder com você, se voltar. Mas você não quer saber.
(GRACE)O que é, então? O que é que você desaprova em mim?
(Pai) Foi uma palavra que você usou que me provocou. Você me chamou de arrogante.
(GRACE) Eu tenho o direito de chamá-lo de arrogante, pai.
(Pai) É exatamente isso que eu não gosto em você. Você é que é arrogante!
(GRACE) Veio até aqui dizer isso? Não sou eu quem está julgando, é você.
(Pai) Você não julga ninguém, pois tem pena deles. Uma infância sofrida e um homicídio. Um homicídio é necessário, certo? Você só culpa as circunstâncias. Estupradores e assassinos podem ser vitímas pra você, mas para mim são cachorros! Se estão comendo o próprio vômito, precisam de uma coleira.
(GRACE) Os cães obedecem à sua própria natureza. Por que não merecem perdão?
(Pai) Podemos ensinar muitas coisas úteis para os cães, mas não se lhes perdoarmos sempre que obedecem à sua natureza.
(GRACE) Então, sou arrogante. Sou arrogante porque perdôo as pessoas.
(Pai) Não vê o quanto condescendente você parece ao dizer isso? Você tem esta idéia de que ninguém pode chegar, de maneira alguma, a ter os mesmos padrões éticos que você. Eu não posso pensar em nada
mais arrogante do que isso. Você, minha filha, minha querida filha, perdoa as pessoas com desculpas que nunca permitiria dar a si mesma.
(GRACE)Por que não devo ser misericordiosa? Por que?
(Pai) Você deve ser misericordiosa na hora de ser misericordiosa. Mas deve manter os seus padrões, você deve isso a eles. O castigo que você merece pelas suas transgressões, eles também merecem.
(GRACE) Eles são seres humanos.
(Pai) Todo ser humano precisa responder pelos seus atos? Claro que sim! Mas você nem dá a eles essa chance. E isso é extremamente arrogante. Eu amo você, eu amo você demais, mas você é a pessoa mais arrogante que eu já conheci na vida. E chama a mim de arrogante! Eu não tenho mais nada a dizer.
segunda-feira, 29 de março de 2010
Desde o fim de sábado, ando com uma siquizira que ronda entre a dengue e a gastroenterite. Como se as coisas já não andassem lá as mil maravilhas, agora vivo nesse vai e vem, entre a UPA e a privada.
Perdendo as aulas da pós-graduação, talvez mais do que isso, um tempo precioso. É preciso calma, paciência (afinal, foi a falta dela que até aqui me trouxe). Um momento aberto no tempo, o que acontece a cada segundo, enquanto minha barriga faz barulhos estranhos.
Estou suando, e este é um bom sinal.
terça-feira, 16 de março de 2010
O amor segundo Adriano
Os cínicos e os moralistas concordam em colocar a volúpia do amor entre os prazeres ditos grosseiros, como o prazer de comer e de beber, declarando-a, contudo, menos indispensável do que aqueles, visto que eles podem perfeitamente prescindir dela. Do moralista tudo se espera, mas espanto-me que o cínico se tenha enganado. Admitamos que uns e outros receiem seus próprios demônios, seja porque lhes resistam, seja porque se lhes entreguem, esforçando-se por aviltar o prazer a fim de lhe tirar o poder quase terrível sob o qual sucumbem, e diminuir o estranho mistério no qual se sentem perdidos. Acreditaria nessa associação do amor às alegrias puramente físicas (supondo-se que tais alegrias existam) no dia em que visse um gastrônomo soluçar de prazer diante do seu prato favorito, tal como o amante sobre um ombro amado. De todos os jogos, o do amor é o único capaz de transtornar a alma e, ao mesmo tempo, o único no qual o jogador abandona-se necessariamente ao delírio do corpo. Não é indispensável que aquele que bebe abdique da razão, mas o amante que conserva a sua não obedece inteiramente ao deus do amor. Tanto a abstinência quanto o excesso não engajam senão o homem só. Salvo no caso de Diógenes, cujas limitações de caráter de racional pessimista definem-se por si mesmos, toda experiência sensual nos coloca em face do Outro, acarretando-nos as exigências e as servidões da escolha. Não conheço, fora do amor, outra situação em que o homem deve decidir-se por motivos mais simples e mais inelutáveis. No amor, o objeto escolhido deve valer exatamente seu peso bruto em prazer, e é ainda no amor que o amante da verdade tem maiores probabilidades de julgar a nudez da criatura. A partir do desnudamento total, comparável ao da morte, de uma humildade que ultrapassa a da derrota e a da prece, maravilho-me ao ver renovar-se, cada vez, a complexidade das recusas, das responsabilidades, das promessas, das pobres confissões, das frágeis mentiras, dos compromissos apaixonados entre nosso prazer e o prazer do Outro, tantos laços impossíveis de romper e tão depressa rompidos! Este jogo cheio de mistérios, que vai do amor de um corpo ao amor de uma pessoa, pareceu-me belo o bastante para consagrar-lhe uma parte de minha vida. As palavras enganam, especialmente as do prazer, que comportam as mais contraditórias realidades, desde as noções de aconchego, doçura e intimidade dos corpos, até as da violência, da agonia e do grito. A pequena frase obscena de Posidônio sobre o atrito de duas parcelas de carne, que te vi copiar nos teus cadernos escolares com aplicação de menino ajuizado, é incapaz de definir o fenômeno do amor, assim como a corda que o dedo faz vibrar não pode explicar o milagre dos sons. Essa frase insulta menos a volúpia do que à própria carne, esse instrumento de músculos, sangue e epiderme, essa nuvem vermelha de que a alma é o relâmpago.
Confesso que a razão permanece confusa em presença do prodígio do amor, da estranha obsessão que faz com que essa mesma carne, que tão pouco nos preocupa quando compõe nosso corpo, limitando-nos somente a lavá-la, nutri-la e, se possível, impedi-la de sofrer, possa inspirar-nos uma tal paixão de carícias simplesmente porque é animada por uma personalidade diferente da nossa e porque representa certos traços de beleza sobre os quais, aliás, os melhores juízes não estariam de acordo. Aqui, como nas revelações dos Mistérios, tudo se passa além do alcance da lógica humana. A tradição popular não se enganou ao ver no amor uma forma de iniciação e um dos pontos onde o secreto e o sagrado se tocam. A experiência sensual equipara-se ainda aos Mistérios quando a primeira aproximação provoca nos não iniciados o efeito de um rito mais ou menos assustador, escandalosamente desligado de todas as funções até então familiares, como comer, beber e dormir, parecendo antes motivo de gracejo, vergonha, ou terror. Da mesma maneira que arrasta-nos para um universo diferente, onde, em situação normal, nos é vedada a entrada e onde cessamos de nos orientar, uma vez apagado o ardor e extinto o prazer. Cravado no corpo amado como um crucificado à sua cruz, penetrei em certos segredos da vida que começam a desvanecer-se da minha lembrança por efeito da mesma lei que faz com que o convalescente, depois de curado, cesse de encontrar-se nas misteriosas verdades do seu mal, e que o prisioneiro posto em liberdade esqueça a tortura, e o triunfador a embriaguez da glória.
Por vezes sonhei de elaborar um sistema de conhecimento humano baseado no erotismo. Uma teoria do contacto na qual o mistério e a dignidade de outrem consistiriam precisamente em oferecer ao Eu esse ponto de ligação com um mundo desconhecido. A volúpia seria, nessa filosofia, a forma mais completa e mais especializada de aproximação com o Outro, uma técnica a mais colocada a serviço do conhecimento de uma individualidade estranha à nossa. Nos encontros, mesmo os menos sensuais, é ainda no contacto que a emoção nasce ou morre, tal como acontece com a mão um tanto repugnante da velha que me apresenta uma petição, a fronte úmida do meu pai em agonia, ou a chaga lavada de um ferido. As próprias relações mais intelectualizadas, ou as mais neutras, ocorrem através desse sistema de sinais materiais: o olhar subitamente iluminado do tribuno a quem explico determinada manobra numa manhã de batalha; a saudação impessoal do subalterno que nossa passagem imobiliza em atitude de obediência; o olhar amistoso do escravo a quem agradeço por trazer-me uma bandeja; ou a expressão apreciadora de um velho amigo ante o camafeu grego com que acabamos de presenteá-lo. Com a maior parte das pessoas, os mais ligeiros ou mais superficiais desses contactos bastam a nosso desejo, ou até o excedem. Que esses mesmos contactos insistam e se multipliquem em torno de uma criatura única até bloqueá-la toda inteira; que cada detalhe de um corpo apresente para nós tantas significações perturbadoras como os traços de um rosto; que um único ser, em vez de inspirar-nos quando muita irritação, prazer ou aborrecimento, nos obsidie como uma melodia ou nos atormente como um problema; que esse ser passe da periferia do nosso universo ao seu centro, que se torne mais indispensável do que nós próprios, e estará realizado o admirável prodígio: assistiremos então à invasão da carne pelo espírito, e não mais um passatempo do corpo.
(Marguerite YOURCENAR, Memórias de Adriano, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980. pp.20-1 (6ª edição).)
sábado, 13 de março de 2010
Deus do céu, como "Only by the night", do Kings of Leon, é sensacional! O melhor cd de rock que ouvi desde "Ten", do Pearl Jam.
Não faço a miníma idéia do que fazer hoje. Segunda começa o Mestrado. A que passou foi foda, no pior sentido possível do termo.
Tenho que rever "Dogville", reorganizar as minhas coisas, meus livros, textos. As coisas andam bem confusas e tensas.
ENFIM!
Não faço a miníma idéia do que fazer hoje. Segunda começa o Mestrado. A que passou foi foda, no pior sentido possível do termo.
Tenho que rever "Dogville", reorganizar as minhas coisas, meus livros, textos. As coisas andam bem confusas e tensas.
ENFIM!
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