domingo, 11 de julho de 2010

"O mundo é o bosquejo de algum deus infantil"

Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida
mas a poesia (inexplicável) da vida.
(Carlos Drumond de Andrade, Lembrete)

Acostumamos a apreender o mundo e suas relações pelo que trazemos da vida. Pensamos e tentamos dar sentido as coisas, julgamos segundo nossos valores como melhor ou pior, da forma mais conveniente para nós. Porém, ocasionalmente acontecem coisas com as quais somos incapazes de lidar, inapreensíveis pela carga acumulada que o tempo nos proporcionou.

- O que você quer, afinal?

- Não sei!

Os degraus eram enegrecidos de sujeira e coloridos pelo branco das guimbas pisadas. Os corredores escuros e barulhentos. Vozes grosseiras faziam eco, e inúmeros homens percorriam os andares como matilhas atrás de carne. As portas vermelhas anunciavam o prazer, mas cada uma guardava surpresas desagradáveis ou deslumbrantes. O corajoso tocava a campainha. Uma mulher abria, mormente desnuda, e os predadores espreitavam o que havia dentro dos apartamentos. Gordas, velhas, negras, menores, havia sempre para todos os gostos, mas a caça envolvia muitos caçadores, o que tornava a busca pela saciedade quase uma disputa, embora solidária. À cada saída, uma indagação, “e aí, está bom?”, ao que se esperava sinceridade, coisa difícil quando se envolve tesão.

Nunca imaginei o que encontraria naquele prédio comercial, de aparência austera e nome de santo. Cervejas eram anunciadas em cartazes de papelão, com grafia errada. Uma grade aberta servia de porta a um desses apartamentos, onde se via um homem muito gordo, velho, peludo e seminu, assistindo TV estirado num sofá velho, do qual levantava para vender suas bebidas. E havia lugar para gente normal, que anunciava em suas portas “Por favor, não toque. Residência familiar.” Como aquele tipo de gente morava ali?

Percorremos quatro andares do prédio. Quanto mais se subia, menos portas vermelhas, menos homens à procura. Razão simples, mulheres mais velhas, acabadas, a lógica da vida inversa a ascensão física vertical dos edifícios. A timidez de início transformou-se na mais estranha volúpia curiosa de saber o que havia dentro dos apartamentos. Se antes me sentia ameaçado, a observação, a adrenalina do desconhecido e a prática entusiasmaram meus dedos. “Oi amor, venha, vamos entrar”. O tempo para decisão era curto, não havia muito o que ponderar. Não sabia o que queria a princípio, e recusava com aquela costumaz maneira sem jeito, educada demais para aquele mundo. “Não, muito obrigado”, totalmente envergonhado.

Meu amigo e eu penetramos duas ou três dessas portas, que ocultavam pequenos cubículos. Geralmente havia três cômodos. Uma sala, onde se faziam as apresentações e vendia-se bebidas. Ora uma junkebox tocava música brega ou funk erótico, ora algumas TVs exibiam filmes pornográficos. Um banheiro sujo, mas com pias e chuveiros para putas e clientes se limparem e fazerem suas necessidades. Um anexo, que se escondia atrás de uma cortina picada, se subdividindo em buracos escuros onde se consumia.

Era no primeiro cômodo em que se ficava mais tempo. Tudo era apertado, e apesar das poltronas existentes, não havia espaço para mais de dez minutos. Um aviso servia para tornar a rotatividade bem intensa. “Tempo máximo de permanência sem consumo: 2 minutos.” Difícil a 5 mangos por cerveja. Se antes titubeava sobre o que queria e viera fazer ali, tudo se tornou muito simples: Foder.

O 118 era nosso destino. Havíamos entrado ali no tempo da inocência (a minha, é claro). Uma pequena morena com aparência de menor, pequenos seios pelados e uma bundinha proporcional maravilhosamente linda. Uma loira. Uma morena corpulenta, que ocupava a função do barman enquanto este saia para renovar o estoque. Uma outra, nordestina, com o cabelo dividido em tranças que lhe dava um ar juvenil e sapeca. Não parava de rebolar, olhando-se ao espelho. À súbita atração, acordei rapidamente, meia hora mais duas camisinhas. Deixei uma grana para meu amigo.Fomos ao buraco.

Sem muito papo. A princípio só a calça. A pedido, tudo. Joguei mochila e roupa para o fundo do colchão – o único espaço disponível – e deitei. Ela veio como louca, me chupando e beijando. Eu suspirava com seu ardor. Logo fiquei duro, e ela foi descendo com a boca, até colocar-me o preservativo. Chupou um tempo que parecia saber precisamente, e sentou virada para mim. Sorvia o bico dos seus peitos enquanto ela subia e descia. Algum tempo,  vira de costas e continua o mesmo movimento, mais frenético. O escuro estilizava a sombra do movimento do meu pau entrando em sua buceta. Indagando-me a minha vontade, coloquei-a de quatro. Soquei forte e rápido, puxando levemente suas tranças para trás. Ela gemia e o que importa é que era convincente. Deitei-a de costas e continuei metendo. Com seus macetes de mulher da vida, foi fechando as pernas e apertando, tornando a penetração mais gostosa. Gozei por medo do tempo – sempre ele.

Deve ter sido uns quinze minutos, e ela fez a pergunta engraçada “Vamos de novo.” Sorri e nos pomos a conversar um pouco. Era da Bahia, e havia acabado de completar 18. Chegara a poucas semanas. Era linda, e lhe disse, perguntando sem menosprezar, se não arranjaria um outro lugar melhor na cidade. Respondeu de que fora enganada por uma falsa promessa, e já que estava ali, pouco importava. “Perdão, qual seu nome, seu péssimo com isso.” “Katrina, é só lembrar do furacão.”

Saciado, sem pressa e tranquilo, sentei defronte a junkebox, pedi uma cerveja e pus-me a observar, já que João acabava de entrar com a loira. Tocava um pagode brega, interrompido pela campainha que soava a cada minuto. Entrava todo tipo de homens, que saiam ou se resolviam quase instantaneamente. Um homem negro de boné e um senhor nordestino fugiam ao movimento intenso. O primeiro resolveu-se com minha baiana, mas não me importei muito. O segundo ficou junto ao bar. Lembrava-me dele na entrada. Era baixo, idoso, e exibia manchas horríveis na cabeça. Parecia parte daquela bizarra decoração de bolas em verde e amarelo, como necessário aquele mundo. Pouco conversava, parecia não existir, não estar ali. O que era aquele homem? O que era aquele lugar, aquela música, aquelas mulheres, aqueles bandos? Tudo era incompreensível, não fazia parte de nada, era absurdo e por isso dotado de qualidades que não conseguiria descrever. Só sabia de uma coisa: estava como que imerso num fascínio calmo e triste, um prazer prolongado, de infinitude. Como se a “paz de Deus” (e como me sinto estranho dizendo isso, mesmo sem saber o que quero dizer) estivesse em mim.

Após a volta de Joca, comprei mais uma cerveja, e dividimos sentados. Saímos em alguns minutos, pois havia muita coisa a se fazer no mundo real. Deixamos o prédio, com nossa cerveja. Dei-lhe um beijo e um abraço, agradecido por aquilo. Um maravilhoso mundo, afinal, que possivelmente nunca se repetirá, e por isso basta para ser eterno.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Não há título

As coisas sempre estiveram lá, e isso bastava. Os dias passavam como que naturalmente, era simples pois vivia sem perceber. Não indagava sobre meus atos e sentimentos, agia porque era assim, sentia porque era assim.

Foi quando, num momento difícil de precisar, sobreveio uma estranha sensação de que viver era mais do que "deixar que as coisas fossem assim". Foi quando tudo ficou complicado. Tomava consciência de mim a medida que descobria. Abria-se o horizonte, e diante do novo, me perdia. Pela primeira vez na vida (como todas as verdadeiras primeiras vezes), senti o desespero e o delírio, amalgamados numa existência desprovida de qualquer sentido.

Preciso de mais palavras para continuar essa estória.

domingo, 6 de junho de 2010

palavras ignorantes sobre o amor e a vida

O que falar sobre o amor? Ainda, o que dizer algo a mais além do tanto que já foi dito? Sempre há a dizer algo a mais sobre um sentimento, a medida que cada experiência e cada forma de sentir é singular. Censuram-me por dizer demais que amo as pessoas. Assim como uma palavra possui inúmeros significados, cada enunciação traduz uma relação específica. Eis o que existe de mais irredutível na minha acepção de amor: a palavra sempre incide sobre uma relação ou um desejo por se relacionar. Daí, se expande numa infinitude de ramificações, que constitui isso a que chamamos vida.

Não digo relação como quem diz somente “entrar em contato com”, embora este seja um dos seus principais fundamentos. Quando digo amor a algo ou alguém, digo, antes de tudo, profundidade. Neste objeto encontro não um subserviente à ação, mas uma contigüidade de mim. Constrói-me, assim vivo. É nas tensões mais sofridas, naqueles estranhamentos intensos em que me perco sem qualquer referente disponível, é onde encontro o amor. É no outro que existo, onde adquiro sentido, assisto pelo ângulo impossibilitado pelo ego.

Pode ser que tais reflexões encontrem-se numa espécie de idealização sobre o ser humano. “Homens e mulheres se matam pelo mínimo”, eis o que diz a opinião daqueles que todo dia assistem a crimes absurdos. Nada é pequeno ante os desenvolvimentos possíveis do ato de pensar. Nossos pensamentos são um angustiante campo de possibilidades, em que se desenham narrativas fantásticas e absurdas pautadas em preconceitos inconscientes. Nesses desvarios, acabamos por nos afastar das maravilhas oferecidas pela vida, que somente cobra o preço do risco. Enquanto recompensa, sentimentos desconhecidos, prazeres irresistíveis, paixões intensas e amores (que não precisam de adjetivos).

Ainda há quem fique pensando, quem pondera sobre fatos cujas representações guiam uma leitura do mundo através de categorias essencialistas, a imagem antecedendo à coisa. Essa raiz infeliz acaba por nos aprisionar numa experiência limitadora, eternizando um momento. Reproduzem ou criam regras onde só deveria existir o entregar-se. Foi pelo particular que chegamos a História, é pela fortuna da experiência única que devemos viver.

Não há método.

domingo, 30 de maio de 2010

Outro dia um amigo me disse: -Marcelo, pára com isso de ser meu amigo, você é o Marcelo.

Descobri ontem que esse Marcelo não é facilmente reconhecível. Onde estão suas estórias, aventuras e desventuras? Quais são as suas paixões, seus sonhos, e principalmente as suas vontades?

Acordei sem esse horizonte, do sujeito que se auto-reconhece, e nos primeiros momentos é difícil viver assim.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Uma grande mulher

Ela tinha uma inocência poética nas palavras
Certa vez, ao assistir um céu noturno cheio de estrelas, disse que parecia poder pegá-las com as mãos
[Foi o instante em que me apaixonei]

Tratava com a mesma delicadeza e generosidade o doutor e o mendigo
Fazia do trabalho um complemento necessário de sua vida, não estabelecendo distinções ou subtraindo-lhe as pessoas que amava
Esperava sempre o melhor do outro, mesmo que este lhe mostrasse a face mais cruel

Nunca conheci mulher igual, e olha que tinha aquele sotaque detestável, embora em sua boca parecesse o canto dos anjos
Sempre penso nela, e ao fazer isso, animo-me a enfrentar as asperezas do dia
Me faz querer ser um grande homem e lutar para melhorar o mundo pelo simples fato deste incluí-la
[a propósito, saber que ela existe me faz ver beleza em tudo]

Eu a conheci há um tempo, não saberia precisar, porque essa memória intensamente viva me causa a impressão de que acabei de encontrá-la.

Infelizmente, intangível, devota seu amor a outro

Devo a isso a eternidade do sentimento

P.S.:Amando sempre como um garoto de 12 anos, e feliz.

domingo, 2 de maio de 2010

Decadence (parte 1)

Esta é uma estória em duas, mais compreensível seria se fossem duas em uma, mas será o homem um apenas, ou será que numa vida cabe mais que um? Esta poderia ser dita como a estória de realidade e sonho, mas o texto é um, o que elimina qualquer distinção, sendo os dois estória, tão real o sonho quanto tão sonhada a vida, é tudo palavra, é tudo imaginação.

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A atmosfera do minúsculo apartamento era literalmente tóxica. Ao visitante desavisado, aquele ambiente fazia arder aos olhos e faltar o ar. As duas únicas janelas davam uma para o muro do prédio vizinho, a outra para a asquerosa área de serviço do andar. Ambas trancadas.

Eram três da madrugada no relógio de parede da pequena cozinha. Sobre a pia, copos e mais copos sujos se acumulavam. Em um canto qualquer, a cafeteira permanentemente ligada aquecia um resto de bebida. Não havia geladeira, muito menos fogão.

Uma pequena mureta separava a cozinha do quarto-sala-escritório-casa de João. Estava sentado em frente a uma mesa, e um abajur de madeira pequeno – a única luz acesa - iluminava sua atividade e uma densa mistura de fumaça e poeira. Mais a direita, um pacote de Hollywood vermelho aberto, dois maços vazios amassados, outro pela metade com um isqueiro por cima, um cinzeiro quase transbordando de cinzas e guimbas, com um aceso a queimar. Ao lado esquerdo, contava-se um copo quase vazio de café, que deixava mais uma marca dentre tantas sobre o verniz. Debaixo de seus olhos, um caderno espiral aberto, com o cilindro de arame lotado de vestígios das folhas arrancadas que se espalhavam pelo chão, amassadas.

Uma bic com a carga no final passeava habilmente por entre os dedos de João. A cadeira inclinava-se para trás, projetando seu olhar para o teto. Estava com um gasto casaco jeans, calças de moleton velhas e meias desfiadas. Os cabelos desgrenhados denunciavam o desleixo, os dentes amarelados os vícios, o rosto pálido os dias trancados, as olheiras a insônia.

Havia um estranho silêncio, incomum pela proximidade a rua movimentada. O barulho de sua respiração era alto, e o único que se podia ouvir. Ensimesmado, parecia instigado pelo ritmo de seu peito, sobre o qual a outra mão pousava. O caminho inevitável de uma vida desregrada. Asma, enfisema pulmonar, Câncer de pulmão. O que será que pensava João? Quiçá pudesse ouvir seus pensamentos, mas era impossível. Afinal, quem ouviria? Será que o som do pensamento teria o tom de nossa voz?

Três toques fortes e secos na porta ressoaram pelo apartamento e João despertou de si, quase caindo da cadeira. O susto do barulho acelerou-lhe o coração. Recobrado, levantou-se afastando a mesa, o que fez subir uma grande nuvem de poeira. Pegou o cigarro do cinzeiro e após uma última tragada, o apagou ao levantar. Tossiu carregadamente duas vezes enquanto encaminhava-se a noroeste. Seus passos espalharam as bolas de papel pelo chão.

Olhou pelo olho mágico. Uma mulher de pele branca e cabelos negros encontrava-se do outro lado.

“O que você quer?”

“Foder” - respondeu uma voz desregulada.

“Vá embora, Jane, são três e meia da manhã”

“Abre essa porra logo!”

João abriu, girando a Papaiz e a chave. Cambaleante, Jane entrou no apartamento. Era uma mulher muito atraente, com um vestido verde daquele tecido que dá para sentir a pele. Ela olhou ao seu redor com uma expressão de asco, que se estendia a João.

“Que merda é essa! Isso aqui parece uma casa fantasma. Olha pra você, que lixo! Não quero mais foder.”

“Ótimo, vá embora.” – João abriu novamente a porta.

“Por quê tá falando assim? Não quer foder?”

“Você já disse que não quer, e eu menos ainda. Cai fora.”

“Você e essa merda de livro. Acho que você é viado, João.”

“Pode ser. Caí fora agora!”

Como se fosse de propósito, mas sob os efeitos da bebida, Jane caiu feito pedra no sofá de João, levantando outra nuvem de poeira intensa. João fechou a porta e aproximou-se de Jane. Que corpo era aquele?! Sentia desejo, após tantos dias de clausura. Inclinando o tronco para fora do sofá, Jane começou a vomitar no assoalho de taco. Era o fim do desejo. Deixou o vomito e a mulher onde estavam e voltou à cadeira. Olhando para o teto, acendeu um cigarro, e após uma boa tragada, escreveu uma palavra – decadência.
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O volume da TV na sala aumentou de repente. O teto era branco, e para ele XXXX olhava sem ver. Via seu sonho. Levantou e caminhou à cozinha. Pedofilia novamente. Seus pais não perdiam um dia sequer.

Colocou o café no copo e sentou-se na mesa da cozinha. As vozes que chegavam da sala comentavam a mesma coisa de todos os dias. “Como é que pode um pai fazer isso com a filha?” “Que monstruosidade.” “Esse homem não tem Deus no coração” “Muda de canal, esse cara é doente”. Todo dia, pelo menos por meia hora, assistia-se ao noticiário sensacionalista que defendia a pena de morte e acusava de antemão a qualquer criminoso que caísse nas suas garras. A TV ficava ligada o dia todo, e afora as novelas, os únicos programas impreterivelmente assistidos eram os noticiários. Todo o dia era arrastão, assaltos, balas perdidas, pedofilia.

XXXX tinha horror a tudo aquilo exatamente pela consciência que tinha de como aqueles programas afetavam a sua vida. Realimentavam o medo da rua com que fora criado desde criança. Crescera em condomínios, sem poder por o pé na rua. “Cuidado, é perigoso” fora a expressão mais ouvida durante toda a sua vida. E tudo era perigoso, sair à noite, conhecer pessoas novas, ir para lugares desconhecidos, tomar decisões. XXXX passara boa parte da vida ansiando pelo inseguro. Vinte anos não vividos.
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Quando se diz que algo está decadente, é normal pensarmos que houve um momento melhor, de sucesso, de desempenho elevado, de maior vitalidade. Não era bem essa acepção que fazia a cabeça de XXXX. Em sua cabeça, este termo tinha a forma de um estilo de vida misógino, egocêntrico, sujo e autodestrutivo. Era antes forma, imagem, do que qualquer outra coisa. A decadência era a sua fantasia de vida ideal, aquela que não tinha coragem de viver, mas que achava extremamente atraente.

Passava algumas horas por dia à frente do computador. Abria um documento de word e ficava alguns momento olhando para a tela com a página em branco. O barulho impertinente que a casa produzia logo o convencia de que era impossível concentração e paciência para escrever seus pensamentos sujos. Na miríade de prazeres oferecida pela internet, pegava-se nos vídeos pornôs, nas fotos de mulheres nuas. Masturbava-se, e o gozo lhe trazia o peso da culpa, de ter sido vencido pela compulsão de seus instintos. Com as mãos limpas, voltava ao PC, onde abria seu software de conversação. Lá construía sua personalidade. Identificava-se como John Milton, escritor inglês do século XVII, mas cuja existência só soube a partir do filme Advogado do Diabo, no qual Al Pacino encarnava o diabo sob a forma humana de um advogado, homônimo ao autor de Paradise Lost. Abaixo, uma citação extraída de um frustrado poeta brasileiro, da geração ultra-romântica: “Tudo é podre no mundo. Que me importa que ele amanhã se esboroe e que desabe, se a natureza para mim está morta”. No espaço reservado para a imagem, uma pintura de 1847, chamada Romans in the Decadence of the Empire, de um francês chamado Thomas Coulture, escolhida por ter sido a única imagem razoavelmente decente que encontrou com a palavra decadence no site de busca.



Com o personagem construído, passava horas e horas conversando nos chats, buscando conversar sobre sua visão de mundo. Como tinha um blog em que despejava sua visão “pessimista” e esbanjava sua erudição de orelha de livro, conseguia atrair algumas mulheres impressionadas com suas referências, e as colecionava na sua lista. Mas nunca saia dali, no máximo para as aulas da faculdade, onde tentava se formar em Literatura. Ampliava a cada dia mais esse mal estar consigo mesmo. Fazia questão de dizer-se odiando, por mais que precisasse sempre conversar. Odiar era um verbo fácil de usar quando se recusava o mundo em nome de uma ficção imaginada. Afinal, era o que praticava todo o tempo.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Dogville e o Leviatã

[Após ser violentada, explorada e acorrentada em Dogville, Grace é libertada pelos capangas de seu pai. Estes a escoltam, até  entrar no luxuoso carro do pai mafioso]

(GRACE) Vai justificar suas ações antes de atirar em nós? Essa é nova. Isso poderia ser visto como uma fraqueza, estou decepcionada.

(Pai) Não vou atirar em ninguém.

(GRACE) Já atirou em mim antes.

(Pai) Sim, é verdade, e me arrependo disso. Você fugiu. Mas lhe deu tempo de pensar em algumas coisas, mas é claro que você é teimosa demais.

(GRACE)Se não vai me matar, então porque veio?

(Pai) Naquela nossa conversa, você disse por que não gostava de mim e depois fugiu. Eu quero dizer o que
desaprovo em você. Acho que assim será uma conversa civilizada.

(GRACE) Foi para isso que veio? E chama a mim de teimosa? Não veio aqui me forçar a voltar e a ser como você?

(Pai) Se eu achasse que pudesse forçá-la a voltar, mas isso nunca acontecerá. Você é mais do que bem-vinda. Pode voltar para casa e voltar a ser a minha filha a qualquer hora. Estou até disposto a compartilhar o meu poder com você, se voltar. Mas você não quer saber.

(GRACE)O que é, então? O que é que você desaprova em mim?

(Pai) Foi uma palavra que você usou que me provocou. Você me chamou de arrogante.

(GRACE) Eu tenho o direito de chamá-lo de arrogante, pai.

(Pai) É exatamente isso que eu não gosto em você. Você é que é arrogante!

(GRACE) Veio até aqui dizer isso? Não sou eu quem está julgando, é você.

(Pai) Você não julga ninguém, pois tem pena deles. Uma infância sofrida e um homicídio. Um homicídio é necessário, certo?  Você só culpa as circunstâncias. Estupradores e assassinos podem ser vitímas pra você, mas para mim são cachorros! Se estão comendo o próprio vômito, precisam de uma coleira.

(GRACE) Os cães obedecem à sua própria natureza. Por que não merecem perdão?

(Pai) Podemos ensinar muitas coisas úteis para os cães, mas não se lhes perdoarmos sempre que obedecem à sua natureza.

(GRACE) Então, sou arrogante. Sou arrogante porque perdôo as pessoas.

(Pai) Não vê o quanto condescendente você parece ao dizer isso? Você tem esta idéia de que ninguém pode chegar, de maneira alguma, a ter os mesmos padrões éticos que você. Eu não posso pensar em nada
mais arrogante do que isso. Você, minha filha, minha querida filha, perdoa as pessoas com desculpas que nunca permitiria dar a si mesma.

(GRACE)Por que não devo ser misericordiosa? Por que?

(Pai) Você deve ser misericordiosa na hora de ser misericordiosa. Mas deve manter os seus padrões, você deve isso a eles. O castigo que você merece pelas suas transgressões, eles também merecem.

(GRACE) Eles são seres humanos.

(Pai) Todo ser humano precisa responder pelos seus atos? Claro que sim! Mas  você nem dá a eles essa chance. E isso é extremamente arrogante. Eu amo você,  eu amo você demais, mas você é a pessoa mais arrogante que eu já conheci na vida. E chama a mim de arrogante! Eu não tenho mais nada a dizer.