domingo, 23 de novembro de 2014

23/11/2014

Desprender do que te apega, completar com o que te falta.
Haverá sempre um apego, alguma precisão.
Assim com esta angústia de incompletude,
esta vontade de libertação,
que deveríamos chamar de vida. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Desencoantro

Com sua distância,
se foi a fantasia,

Voltei a errância,
do sem-ti parecia.

Nem a lembrança,
de remédio, servia.

Sem evitar os perantes
que no mundo havia,

encontrei circunstâncias
e mais um todavia

pelo qual nova andança
rumei estrada perdida.

A chamei Desesperança
pois achei real magia

quando em mim assanha
quem no tempo habita.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Alguns motivos para beber

[Segunda à noite, 01/09, após um dia de trabalho, sento num bar na esquina do beco dos barbeiros com a rua do Carmo. Peço uma Brahma e abro o caderno. Ainda não são 19 horas.]

Bebo a desgraça
Bebo a dificuldade com a solidão
Bebo as frustrações
Bebo o inconformismo com a crueldade das pessoas
Bebo a miséria da minha auto-confiança
Bebo as desilusões das ilusões criadas na noite anterior
Bebo a impaciência com a monotonia cotidiana.
Bebo a incapacidade de sentir
Bebo pra ter fantasias
Bebo para desfazer-me das fantasias
Bebo a culpa cristã dos meus erros
Bebo pra saber quem sou
Bebo pra esquecer quem sou
Bebo a ausência de sentido
Bebo para alguma coisa ter sentido
Bebo minhas covardias
Bebo pra ter coragem amanhã
Bebo o fim do dia
Bebo pra inaugurar novo dia
Bebo uma vida não vivida
Bebo pra fingir viver
Bebo pra não viver
Bebo minha perdição
Bebo pra não me perder

domingo, 10 de agosto de 2014

Malandro de dama

Quando o malandro fugiu da polícia,
correu pro samba. 
Pra não levar cana e tapa na cara
e enganar os meganha,
disjuntou o quadril, fez-se de dama
e no meio dos bamba, deu uma quebrada. 

Aliviado o malandro fugiu do esculacho,
mas não do riso da rapaziada, 
que fizeram troça
do malandro de dama no samba. 

Identidadi

Meus artigo definido defini o plural que nóis é e vem comnóis nas qualidade que só é nóis junto. no meio eu sou nóis juntado na labuta do trampo da batida da laje na intera da gelada di domingo na ideia da letra que só nóis fala e intendi. diferenti desses povo que corrigi nóis na escrita das concordância mais que num sabe que na real nóis é que discorda. Se você me intendê é tudo nosso. 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A máquina supressora de hábitos

Sonhei certo dia que havia encontrado uma máquina supressora de hábitos. Saturado da vida que levava, topei o risco. Da transformação produzida fiquei apenas com sons e signos desprovidos de significado. Perdi toda a profundidade com que me relacionava com o mundo, que passou a se constituir de imagens enigmáticas. Com o que me sobrou, só me restou fazer uma reza, porque o que escolhi não entender tinha que ser religioso. Mas um sentimento me afirmava que precisava de um propósito e um destinatário. Qual? Quem?  Nenhuma ideia de Deus me socorria e os propósitos havia abandonado com os hábitos. 
Me olhei no espelho e vi uma forma estranha e bizarra. Não era reflexo e sim disflexo. Que mostrum era aquele que me encarava, fora de qualquer ordem concebível? Era largo em seu meio, de suas extremidades saiam prolongamentos que o sustentavam e um recipiente quadrangular o encimava, recoberto por tecidos finos de uma textura negra. Nesse recipiente ainda havia sete buracos, cinco frontais e dois laterais. Três deles expressavam algo como a resposta de um mecanismo interno que parecia ser meu. Um dos frontais movia-se de acordo com a minha vontade, e ouvi um som: PESADELO.
Seria o nome do deus que procurava? Repeti o som algumas vezes, como num mantra em busca de alguma revelação. Arrisquei que a revelação era a precisão de algum reconhecimento. Por que precisava reconhecer? O que precisava reconhecer? Que sentido havia nessa necessidade? Uma expressão me veio a mente, sem qualquer referência espaço-temporal para localizá-la: O VERBO ERA DEUS. Sabia do “verbo” que criava e do “deus” que era vontade. O que aquilo queria dizer? A afirmação anulava meu esforço primeiro. Como fazer uma reza dirigida para o que dizia? Afinal, se faz alguma reza que não seja para algo de divino? O que era a necessidade de deus diante da ausência de significados? Se o verbo era deus e o som saia daquele buraco por mim comandado, o que era eu? Algo maior que deus? Eu era a entidade criadora maior? Talvez daí viesse a desnecessidade de sentido. O que antecede a criação não é o vazio, o nada? Eu era o nada? A ideia da reza perdeu sua substância, e nada mais podia fazer.

O monstro diante de mim desapareceu, e o disflexo transformou-se num alienígena que nada me causava, uma transparência. Abandonei-lhe em sua prisão de vidro e fui pra rua ver se encontrava algo diferente do absoluto aterrador a que meus pensamentos me conduzia. A iniciativa foi um espanto para ver se acordava. Como havia decidido não saber o que era a rua, apenas me ocorreu que era fora, o mundo desamparado porém distante daquelas prisões interpenetradas, o alienígena no vidro, as paredes. Saí em expansão com meu vazio que precisava ser preenchido. 

domingo, 25 de maio de 2014

Segunda

Tens um daqueles dias de cão. Nada deu certo. Mesmo desanimado, arribando tarde no destino do fim dos dias, resolves ir dançar. Por alguma daquelas mágicas soluções do incompreensível, o espírito transtornado inspira o corpo e a dança é leve e prazerosa. Na saída exerces o papel de exemplar cavalheiro ao acompanhar algumas damas ao ponto. Desvias do caminho que a sela da rotina impõe. E assim, num bar chinfrim dessa rota antes desprezada, descobres músicos numa bossa magnífica. Abres a cerveja num brinde a maravilha dos desvios das rotas, dos dias e da vida.